Uso e desuso – por Marcelo Feijó de Mello

 

Vamos pegar o bonde andando. O que? Bonde? Talvez tenhamos que nos mexer para não perder o trem. Trem? Bom isto pode ser já que os trens, ao menos em São Paulo estão voltando. E o que não volta, mas permanece em nosso vocabulário, e sem querer disparamos no meio de uma frase, fazendo com que metade dos ouvintes fiquem com aquele cara de Hã!

Vai pegar a “japona” parece que vai esfriar, não pega bem ir de calça rancheira com este sapato bico fino, não combina mesmo. Que é isto! esta é um legítima calça Lee! Coisas que como estas, ou tênis All Star, caneta Cross, comprávamos no muambeiro, juntos com alguns cigarros Parliament (contrabando).

O vestuário é dos mais atingidos pelo desuso, as palavras ficam “demodê”: quem sabe o que é uma barra italiana, ou boca de sino, que combinava com golas rolê. Certos itens como abrigo, pochete ou anágua sempre foram mais para cafonas. Assim como usar brill cream, gumex ou passar acqua velva após o corte americano do cabelo ardendo nosso cangote.
Para as saídas, as vezes era só para dar um rolê, ou quando acabava o namoro, você dizia desolado, ela desmanchou! O que é isto, seu filho assustado pensando que você namorava alienígenas que desintegravam ao final do namoro. Se entendeu também entenderá o que é virar o disco, enrolar a fita, limpar a cabeça do gravador com cotonete e álcool, enrolar a fita para gravar em cima e discar um número, para te dar um toque.

Objetos ficam ultrapassados rapidamente, lembro que minha mãe comprou num antiquário uma escarradeira de louça, isto mesmo um objeto que as pessoas deixavam em casa, para que os convidados cuspissem. E o que dizer do penico, achava um espanto, ir na casa de fazendo do meu tio e ver os penicos que existiam embaixo da cama, eu e meu irmão esperávamos a noite para fazer xixi sem sair da cama (o risco era no dia seguinte esquecer e chutar o tal penico ao acordar). Isto mesmo, ou então uma namoradeira, aquelas cadeiras duplas, para que as pessoas ficassem de frente uma para outra, o que adiantaria isto, hoje se ambos estariam nos seus celulares. Quem pode deixar de ficar em forma se não tiver seu rolomag, ou um bel-linha (tinha o modelo de parede que eu gostava de usar e cantar ao mesmo tempo, para a voz sair entrecortada).

Bebidas também envelhecem, hoje é proibido pedir: um Cinzano, ou um Underberg, ou Hi-Fi, Cuba Libre ou até whisky on the rocks, jamais peça revela um RG baixíssimo.

Coisas que não vemos mais: máquinas de escrever, curso de datilografia, decalque, radinho de pilha, radio AM. Outros mudaram de nome, para se modernizar, sapato de tênis, virou tênis, fita gomada virou durex (sei disto porque meu pai falava assim: Marcelo pegue a fita gomada!). Coisas que não veremos logo, logo: relógio de pulso, pente (eu já não uso por falta de cabelos), calçadeira, telefonema, telegrama, carta, carteiro, telefonista e ascensorista (exceto no senado) e boas maneiras (joguei fora o meu diploma do curso da Madame Poças Leitão).

Se você leu tudo isto e não entendeu nada, não se preocupe. Você é novo!

 

(Marcelo Feijó de Mello é psiquiatra e coordena o PROVE (Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência)/Unifesp – www.provepsico.com.br) 

Em tempo: é um amigo querido, que também ama escrever!

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