Tudo é sertão…

(Recado da Lina: o texto belíssimo é do escritor Nilson Monteiro, publicado na revista “Mais Londrina 360º” dirigida pelo grande jornalista João Arruda. E a foto preciosa é de Maria Cristina Alves Penha. Aproveito para dizer que Londrina, no norte do Paraná, também mora no meu coração. Li, vi e me emocionou muito. Por isso, agradeço aos três pela delicadeza ao autorizar publicar aqui, um deleite para todos nós)

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(foto de Maria Cristina Alves Penha)

 

“Aqui deste chão, bem pra cá do fim do mundo, sentindo o cheiro de lá do rancho fundo, de lá bem pra lá do fim do mundo, lá pisando em bosta de vaca e comendo goiaba bichada, lá chupando ameixa, mexerica e laranja, lá tirando as remelas da antemanhã, lá vendo o sol estufar o céu com sua tinta escarlate e esconder-se sob a saia da noite, lá ouvindo um bando de maritaca e de fogo-apagou, lá fumando paiero, lá comendo linguiça e tomando cachaça, lá enroscando fiapos de manga espada em cada buraco de dente, lá sonhando com a lua e o terreiro prata, lá dormindo no paiol, lá protegendo a testa com chapéu de palha, lá embaçando os olhos nas despedidas, lá cutucando vespeiro com vara curta, lá trincando os beiços com limão-rosa e sal, lá torrando amendoim, lá limpando o carvão escorrido nas lágrimas, lá coçando os caminhos do bicho-de-pé, lá ficando de cócoras na casinha no quintal, lá pintando os lábios com sangue de amora, lá escolhendo os rachados das telhas para contar estrelas, lá chorando de saudades do barulho metálico do trem, lá escutando modas brejeiras, lá mijando em formigueiros, lá caçando tatu, lá armando arapuca pros jacus, lá espalhando estórias de fantasmas e assombrações, lá protegendo os ovos de galinha dos olhos do calango, lá cantando junto com os canários da terra, lá mirando o estilingue no peito das pombas, lá arranhando modas e violas, lá repetindo a reza e puxando o terço, lá desafinando na Folia de Reis, lá soprando a brasa dos sonhos, lá esparramando o sangue do porco na ponta da faca e o juntando nas tripas secas, lá ajuntando tripas para as pedras de sabão, lá lustrando a botina e sujando de barro o geme-paulista, lá dando milho pra bode, lá desenhando imagens no corpo das nuvens, lá chuchando cana e entupindo-se de açúcar cristal, lá escorregando nas barrancas e enfiando as unhas no brejo, lá ateando fogo no mato feito praga, lá arrancando minhoca, lá destroncando pescoço de galinha, lá cantando na goela de um índio de crista eriçada e acordando madrugadas, lá pescando lambaris, bagres, palavras e alfabetos, todos eles, mesmo os que não sabem Português, ou não sabem nadica de nada, para dizer, simplesmente, que lá onde o vento azul faz a curva e encrespa o lago vermelho, lá naqueles chãos chamados brasis, de terra magenta, marrenta e visguenta, e braços floridos de café, enterrei minha alma”.

 

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