SYLVIO BACK É BOM DE PROSA TAMBÉM

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       Por Luiz Taques

Capa: Miriam Lerner sobre ilustração de Cárcamo.

Capa: Miriam Lerner sobre ilustração de Cárcamo.

“Meu amigo, do mesmo modo que não existe livro antigo, também não existe filme antigo, compreende!?”, garante, em Guerra do Brasil – Contos da Guerra do Paraguai (Topbooks, 152 páginas), o cineasta, poeta, roteirista e agora contista Sylvio Back. O artista de mão cheia tem razão. E eu vou tentar explicar porquê: se você ler esse livro daqui a 150 anos, quando a guerra travada por Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai estiver completando 300 anos, você verá que ele é tão atual quanto o é agora, em 2014, em 2015, em 2016, em 2017, em 2018, em 2019 e em 2020, anos em que ela, a guerra, está (ou estará) fazendo um século e meio (esse litígio bélico começara em 1864 e terminara  em 1870).

Lançado em 2010, portanto, só cinco anos depois, mais exatamente no sábado passado, eu tomei conhecimento desse livro de Back e, para a minha sorte, havia um exemplar disponível num sebo de Londrina. Por telefone, tratei de reservá-lo e aí fui até lá, ao centro da cidade, cidade de trânsito caótico e safado como a nossa atual política regional e nacional, para buscá-lo. Paguei apenas treze reais por um livraço. O preço de capa era quatorze, mas a vendedora me dera desconto de um real. Tirei o restante do sábado e o dia de domingo para ler, com calma, o volume.

Os oito contos do livro são muito bons. Mas um deles é ótimo. Uma verdadeira obra-prima. Trata-se de “O filme da mente”. É um conto longo, com aproximadamente cem páginas. Com certeza, de agora em diante, “O filme da mente” estará em todas as antologias literárias brasileiras. Se não estiver, será por pura sacanagem, porque esse conto, além de competente, é uma irrepreensível aula a respeito de palpitantes assuntos universais. Os outros sete contos dessa coletânea são: “Chama sagrada”, “Lavincha”, “Alma-tição”, “O cu da pátria”, “Aquele que faz jus ao nome”, “Bate o bumbo” e “Retirada da Laguna”.

Viu por que não existe livro antigo?

Quase a gente não escuta falar dessa guerra por aí. E, quando escuta, os fatos são distorcidos: os relatos não passam de versões oficiais.

Sylvio Back é um caso à parte.

No livro, ele contextualiza os possíveis motivos para esse confronto sangrento, pusilânime.

Discorre sobre heróis de araque e genocídio.

Back e sua arte não brincam em serviço.

O leitor há de perguntar: se descobrirmos agora um culpado pela guerra, ele, passado tanto tempo, já não estaria absolvido pela história? “Meu caro, culpa não prescreve”, adianta, à página 60, o contista. Interessante ao leitor se debruçar sobre Guerra do Brasil, livro que marca o ingresso de Sylvio Back no gênero conto, para saber quem foi, por exemplo, o ditador López, “o homem mais belo e poderoso do continente americano”, o “impávido general Câmara”, o milico Osório, o comandante Caxias e a primeira-dama Elisa Alicia Lynch.

Conheci o cineasta Sylvio Back em Campo Grande, MS, quando ele lá estivera, em 1985, para pesquisar e filmar Guerra do Brasil.

É um grande documentário; assisti-o, em 1987, quando foi lançado, e, novamente, no ano passado.

Autor do clássico “As veias abertas da América Latina”, Eduardo Galeano, que, para tristeza de todos nós, nos deixou nesta segunda-feira, falou a Sylvio Back nesse filme sobre a guerra. É um depoimento profundo e sincero sobre o conflito.

Está vendo como não existe filme antigo?

A visão de Galeano é atualíssima.

O livro Guerra do Brasil (Contos da Guerra do Paraguai) tem ilustrações do chileno Gonzalo Cárcamo.

As narrativas de Back são recheadas de finíssimo humor.

E isso é legal.

Ajudam a amenizar um pouquinho os horrores daquela guerra.

Luiz Taques é jornalista em Londrina, PR.

E-mail: (luiztaques@gmail.com)

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