Sampa, por Paulo Saldiva

(Emocionou-me o texto, produzido numa madrugada, por Paulo Saldiva, a quem admiro e agradeço por me deixar publicar aqui. Também, em noites insones, já tentei decifrar a São Paulo – meu lar de tantos anos, alegrias, medos e tristezas… Te convido a ler! E que te estimule a pensar ‘Qual é a minha cidade?’….)

 

Prezadas amigas, prezados amigos. Duas considerações. As horas mortas da noite e da madrugada me fazem repassar os fatos do dia. Palavras, cenas, fatos que pareciam à luz do dia insignificantes, voltam com força nestas silenciosas horas. Menos mal seria, se, ao mesmo tempo, eu não fosse acometido de uma falta de bom senso, onde procuro encontrar razões para acreditar que o que nessas horas penso seja de algum interesse. Eximo de qualquer falta, com o coração aberto, todos aqueles que evitarem ler estas palavras. Mesmo assim, escrevi algo para os pródigos de tempo, pois cismei de escrever sobre Sampa. Vivo nesta cidade desde que nasci e, de repente, descobri que não consigo definir a cidade onde vivo. Creio que, ultrapassado um tamanho, uma cidade deixa de ser uma para ser várias. Perdoem-me a esquisitice, mas espero tornar-me mais claro pelo texto que envio abaixo. Boa madrugada e abrigado

Uma Sampa para chamar de sua
Qual é a minha cidade? É aquela de Mario e Oswald de Andrade? Ou a cidade dos carcamanos, como chamados os italianos no tempo passado, por Antônio de Alcântara Machado? Seria a dos índios catequizados por Anchieta? Seria aquela habitada pelos peregrinos, os imigrantes nordestinos, que trocaram o seu viver pausado e lento para vir de encontro à cidade onde o tempo não para, na carga de um pau de arara? Ou mesmo aquela dos coreanos, onde nós todos os encontramos 25 de março?
Como nos movemos em Sampa? Caminhamos pelas suas calçadas, tão sujas e maltratadas, ou presos em congestionamentos. \esperamos o ônibus que nunca chega (esperança vã) ou embarcamos no preciso horário no trem cantado por Adorinan?
Qual é a janela de tempo que vivemos? São os dias de hoje, da crua realidade, ou nos tempos daquela cidade que guardamos em nossas lembranças, de quando ainda éramos crianças a percorrer suas ruas? É a cidade que nos confronta com suas durezas reais, ou aquela em que passeamos de mãos dadas com nossos país?
Qual é a voz de Sampa? É o burburinho das ruas. Os sambas de Vanzolini ou o rock de Rita Lee? Ou, pelo contrário, é tudo isso misturado na sonoridade boa, como a cantada pelos Demônios da Garoa? ]
Qual é mapa de Sampa? É tudo uma só cidade ou vivemos num espaço de ilusão, criado pela benevolência ou caridade, onde a Sampa onde moro é a cidade que liga as pessoas que amo às fibras do meu coração?
Nasci e sempre vivi em Sampa, onde reconheço não uma só cidade, mas várias, cidades imaginárias e tão reais, como o foram para nossos ancestrais. De Anchieta aos Bandeirantes, dos quatrocentões aos imigrantes, todos nós somos meros figurantes de Sampa, cenário da peça da humano ser. Sampa é o teatro e também a realidade, daquilo que é mais do que um cidade, e sim um espaço espiritual de todos nós, paulistanos, que um dia fomos, hoje somos, um dia iremos ser, todos nós, cobaias do experimento do viver.

Paulo Saldiva

Publique aqui um comentário, dúvida ou sugestão