Resto de Onça

 

Foto de Jornalismo Periférico

 

Por José Maschio*

Quer saber, menino? Eu conto. Mas não é conto curto, não. É conto contado, repisado. Coisa de um tempo pretérito. Tempo de meu avô. Esse sim, com primazia do apelido. Resto de Onça. E ficou. Manoelzinho Resto de Onça. Meu avô. Meu pai? Manoelzinho Resto de Onça. Eu também.

Você tem gosto pela cerveja gelada. Bom sinal. E não se nega a pagar rabo de galo. Por isso te conto. E acredite. Está nos livros. Que eu mesmo li, em um tempo que os olhos enxergavam bem. Hoje a catarata não deixa. Mas conto. Na palavra. Palavra de pantaneiro nascido lá na Nhecolândia.

Nhecolândia? Uma imensidão de pantanal sem fim. Vim de lá. E de lá vem esse Resto de Onça. Apelido que virou quase sobrenome. É marca dos Manoelzinhos que vivem no meu corpo. Terceira geração de Manezinhos. Lá pelas beradas de Corumbá, terra de rios e juvevês. Terra de mamicas de porca. Pantanal imenso em imensidões.

Foi na virada do século passado. Precisão de tempo? Dou. Outubro de 1909. Seu Mario, o patrão, amanheceu azedo e preocupado. Cachorrada arrulhava lá pelas bandas de um capão de mato. Capão do Pau Arcado. Coisa de uns quilômetros, talvez dois, da sede. E o cão mestre barroava. Pantaneiro sabe. Se cachorro barroa. É onça. E onça parada.

Se onça está a correr, andar, cão late. E o cão mestre barroava. Era onça parada. Brava. No chão ou em uma árvore qualquer. O patrão recrutou camaradas. Em um tempo que camarada não era comunista. Era só trabalhador agregado à fazenda.

E foram eles. Meu avô, Manoelzinho. Pequeno como eu. Dizem que mais valente. Acredito, que conheci o tipo. Era meu avô, como não conhecer? Morreu velhinho e com o apelido Resto de Onça marcado na lápide. Velho supimpa.

E foram mais. Foi João Boa Vida. Foi Antonio João, cabra resistente. Foi Lopes, paraguaio tererezeiro e mais esperto que branco. Foi também Luiz, o irmão do patrão. Mas esse não contava, moço só irmão do patrão. E de pouca serventia.

E foram todos. Mas estavam desprovidos. De espingardas ou zagaias. E a cachorrada uivava e barroava a chamar pressa na ação. Patrão Mario decidiu improvisar. Usar as facas que eram uns facões como zagaias. Improvisar em varas longas, que cortaram rápido. Mas não deu tempo de improvisar.

Não deu tempo de amarrar as facas às varas. Que antes de tirar as tiras da garupeira. Para a corda do amarrio. A bichona pintou antes. Pintadão, o macharrão. E violento. Com uma patada, mandou longe o cão mestre, o preferido do patrão. O pobre cão corria. Ela, a onça, atrás.

Nisso, Antonio João apareceu. E pulou na frente do bicharéu. Sorte infeliz. Uma dentada no braço esguichou sangue para todos os lados. Menos sorte teve João Boa Vida. Ao ver o amigo no chão, Boa Vida descontrolou-se. Enfrentou a fera só com a vara. Uma dentada deixou sua testa em carne viva. E parte do crânio exposta. Boa Vida fora da luta.

Vovô Manoelzinho ensandeceu. Partiu para cima da fera. Medo dele era ela comer os camaradas. Quase foi comido. Uma mordida nas costas. E ficou lá. No chão, com as costelas e parte do pulmão a céu aberto. Foi salvo pela cachorrada, que não deixava o machorrão pintado em paz.

Lopes, o paraguaio, foi astuto. E teve a sorte de ter uma mamica de porca perto. Ficou atrás da forquilha da árvore. E provocou o bichano que atacou. Feroz. Protegido pela forquilha, Lopes conseguiu alcançar o coração da fera. Os cachorros ajudaram no fim.

O paraguaio Lopes virou herói. Todos sobreviveram. Meu avô, pelas costelas e pulmão expostos, demorou. Demorou tempo de recuperação. Na demora, contava e ouvia os causos da morte de onça. Antonio João, um gozador. Espalhou que vovô não fora comido por ser comida de segunda.

Carne rejeitada por onça. E resto de onça cresceu. De brincadeira virou apelido. De família, quase sobrenome. Duvida disso? Procure nos livros, menino. A história está lá. Não é causo, não. É história e vida pantaneira. Lá da Nhecolândia.

 

José Maschio é autor do romance “Tempos de cigarro sem filtro” (editora Kan).

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