Reflexões: ‘A saúde, sozinha, não dará conta’ diz Luiza Fernandes Machado

 

Luiza Fernandes Machado é uma especialista no estudo do envelhecimento. Ela assessora o Centro de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (CEPE) no Rio de Janeiro e atuou, com importantes contribuições, como coordenadora da Área Técnica Saúde do Idoso do Ministério da Saúde.

 

Perguntas – Respostas:

FMB:  Você acha que é importante qualificar os profissionais de saúde sobre questões do processo de envelhecimento e suas especificidades?

LUIZA:

– Todos sabemos que o  processo de envelhecimento no Brasil hoje é uma realidade e que ocorreu de maneira abrupta.  Até algumas décadas éramos considerados um país jovem. Na Copa do Mundo de 1970 cantávamos: “90 milhões em ação, prá frente Brasil….” – éramos um país com 90 milhões de habitantes,  possuidor de uma população jovem, onde havia o predomínio de uma visão materno-infantil, com políticas voltadas para esse segmento da população.

Em 2010, o censo IBGE apresentou uma população total de mais de 190 milhões de habitantes, sendo que o número de pessoas com 60 anos e mais passou de 20 milhões. A PNAD ( Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) apresentou em 2012 um total de 23 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Segundo projeções,  em 2025 o país terá 32 milhões de idosos e será o 6º país em número de idosos no mundo.

O envelhecimento no país deve merecer cada vez mais o interesse dos órgãos públicos, dos formuladores de políticas e da sociedade em geral, devido ao volume crescente deste segmento populacional. A mudança no perfil demográfico e epidemiológico implica em pensar políticas públicas, com uma visão intersetorial, que deem ao idoso condições para desfrutar de uma vida com mais qualidade e dignidade.

Formar pessoas para uma melhor visão geriátrica/ gerontológica, com o objetivo de  enfrentar precocemente os problemas e agravos relacionados às pessoas idosas, trabalhando numa perspectiva de sensibilidade e solidariedade para com aqueles que muito contribuíram para a construção desse país, torna-se com certeza uma economia para os órgãos públicos, para a família e para o próprio idoso.

Se, por um lado, a longevidade dos indivíduos decorre do sucesso de conquistas no campo social e da saúde, o envelhecimento, como um processo, representa novas demandas por serviços e benefícios que se constituem em desafios para governos, sociedade e familiares do presente e do futuro, mas acima de tudo este cenário deverá estar marcado por um horizonte de solidariedade: entre familiares, entre gerações, entre amigos e entre os próprios idosos.

 

FMB: A Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa é um instrumento que em sua gestão na área técnica Saúde do idoso no Ministério da Saúde vc incentivou para implementar! Está funcionando? Qual a importância dessa ferramenta?

LUIZA:

– Pouco antes de sair do MS, estimulei a sua reformulação, e foram incluídos alguns itens importantes que não estavam presentes na primeira edição, lançada em 2007. Nesta segunda edição,  lançada em março de 2012, incluímos dados como saúde bucal, desempenho para as atividades de vida diária, risco para fragilidade, entre outros. Hoje, com a nova gestão do MS,  a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa está sendo revisitada, inclusive ficou em consulta pública no site do Ministério da Saúde. Na realidade a caderneta de saúde da pessoa idosa é de suma importância para a pessoa idosa, pois apresenta dados importantes sobre a sua saúde e condição de vida; para os profissionais de saúde, que podem acompanhá-lo e conhecer o seu perfil e também para os gestores, pois favorece a elaboração de propostas e políticas públicas de acordo com perfil da população  idosa em seu município.

 

FMB:  Na sua opinião, pode citar 3 principais desafios p/ melhorarmos a saúde e qualidade de vida da pessoa idosa no país?

 LUIZA:

– Existem fatores imprescindíveis na atenção à população idosa em nosso país. A visão para uma melhor qualidade de vida para essa população está atrelada a todos os setores – educação, saúde, assistência social, transporte, etc… . A saúde sozinha não dará conta.

Devido às especificidades do envelhecimento, precisamos cada vez de mais profissionais com conhecimentos em geriatria e gerontologia, pelo menos que tenham conhecimentos básicos na área do envelhecimento. Precisamos de ações efetivas que integrem promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos. Que haja mais humanização no atendimento; que tenhamos mais profissionais e cuidadores sensibilizados e com conhecimentos específicos. Que tenhamos serviços mais organizados, onde haja realmente o fortalecimento de ações de promoção, prevenção e reabilitação. Que tenhamos em nossa rede hospitalar equipes com formação em geriatria e gerontologia para acompanhar o idoso durante a internação, até a alta hospitalar, com orientação  para a família e cuidador. Que haja cada vez mais serviços de atenção domiciliar com equipes com formação em geriatria e gerontologia. Que tenhamos centros–dia, nos quais o idoso posso ser assistido durante o dia para a família que não tem com quem deixá-lo. E acima de tudo, que haja vontade política.

Luiza Fernandes Machado luiza.machado@cepe.rj.gov.br

 

 

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