POESIA DE ANIMAL AGONIZANTE

 

(Por Aline dos Santos)

Nunca é tarde para lermos um bom livro, especialmente se este for de poesia.

Lançado em 2002, só agora, 12 anos depois, tomei conhecimento de Um Urso Correndo no Sótão, de Marcos Losnak.

Marcos Losnak foto 2

Losnak: ”Os olhos não são as únicas vozes do silêncio” (foto: Luiz Taques)

Nascido em Bauru, interior paulista, em 1964, Losnak é formado em jornalismo pela UEL – Universidade Estadual de Londrina (PR). É coordenador editorial da Editora Kan, um dos editores da revista de literatura Coyote e crítico literário do periódico Folha de Londrina.

Ainda bem que um volume do seu livro me chegou às mãos!

Pois, logo na capa, o autor, tal qual João Batista, nos oferece a sua cabeça, mas as facilidades terminam por aí.

Porque a poesia de Losnak não canta amores, musas, idílios.

Em Um Urso Correndo no Sótão, o caminho é denso, na espessa sombra da sombra.

É a poesia que surge em meio ao turbilhão da vida, num ritmo de animal agonizante.

A escrita transpira atmosfera de prenúncio de tempestade.

O céu violento, contorcendo-se em luz e breu.

As palavras nascem da penumbra, encharcadas do desamparo de domingo, da solidão das horas mortas, do grito da angústia.

Uma poesia irrequieta, aversiva ao pôr o dedo na ferida, atraente na beleza oculta da tristeza.

Como as dores maiores que uma noite, que devem ser divididas em milhões de pedaços; como as alegrias menores, que devem ser guardadas como flores escondidas entre livros. Ao fim, “o que ficar mais pesado do que o ar é aquilo que pode matar”.

(Aline dos Santos é jornalista e poeta em Campo Grande, MS)

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O livro Um Urso Correndo no Sótão (Editoras Ciência do Acidente/Atrito Arte, 70 páginas) pode ser encontrado na Estante Virtual. O preço varia: tem sebo vendendo por R$3,00, outro por R$6,00 e em alguns o exemplar chega a custar entre R$30,00 e R$32,00 + o frete.

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(poema de Marcos Losnak)

 

MÚSICA DAS FOLHAS

Vento
é aquilo que retira a imobilidade das folhas

Dor
é o que recheia o corpo de vazios

Amor
é algo que não aparece quando estamos mortos

Brisa
é a sutil compreensão de que nada é imóvel

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