Perdemos um passarinho hoje: o grande poeta Manoel de Barros

 

Manoel de Barros era um gênio, um mestre, um cidadão dos melhores.

De poucos anos pra cá a melodia de seus poemas fez-se presente de forma intensa no meu universo.

Do escritor Luiz Taques, seu admirador e amigo, posts diversos por aqui.

De minha filha, Sofia, uma vivência maravilhosa na escola ao encenar Invencionática, inspirada neste sensível poeta.

Soube da morte de Manoel de Barros por ela. Seu professor, Rogério (outro admirador) acaba de compartilhar com os alunos adolescentes essa perda lamentável.

 

Reproduzo aqui, agora, um dos poemas mais belos de todos os tempos.

 

“O Apanhador de Desperdícios” (Manoel de Barros)

 

“Uso a palavra para compor meus silêncios,

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor os meus silêncios.”

 

(Manoel de Barros morreu hoje, 13 de novembro, aos 97 anos, em Campo Grande)

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