Muda a noção de tempo

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Com perdão do trocadilho, com o tempo a gente vai aprendendo a aproveitar o tempo. Imaginem que uma das poucas “diversões” que me restam é ir ao cinema, de preferência na primeira sessão, tipo 14 horas, quando a gente pode escolher não a mulher, tampouco a cama, como sugere Manuel Bandeira em Pasárgada, mas pelo menos a melhor cadeira, na melhor posição. Dependendo do cinema, a gente pode sair de uma sala e entrar em outra, burlando a precária vigilância. É vergonhoso. Lembra o comportamento de certos políticos, mas é divertido. Afinal, sem nenhum tipo de risco a vida vai ficando insuportável.

Outro tipo de “diversão” que me proporciono é tomar cafezinho em shopping center, de preferência naqueles próximos a uma academia. Como se sabe, todo estabelecimento que se preza tem uma academia, para onde acorrem tanto as que não precisam de nenhum tipo de exercício, como as que não adianta fazer nada. A gente fica ali de plantão. É só levantar-se para pegar alguma coisa, elas dão o braço, solícitas, perguntando se quer ajuda. Como recusar?

Pior é na fila da lotérica, onde todo mundo insiste pra gente passar na frente. É quase um coro, dizendo o senhor tem direito, esses cabelos brancos, essa bengala, pode passar. E não adianta argumentar que prefiro esperar, não tenho nenhuma pressa. Tanto posso conversar sobre qualquer assunto, do alto de minha experiência de mais de 40 anos de trabalho com registro em carteira, como posso ouvir conversas que rendem eventuais croniquetas. Eles não sabem que por trás daquele velhinho de bengala há um antigo repórter, que se perdeu escrevendo sobre os mais variados assuntos. E como se diz na escola, uma vez repórter…

Na fIla do banco não é diferente. Euquanto várias pessoas tentam chegar ao caixa o mais rapidamente possível, aproveito as cadeiras eventualmente disponíveis para observar o movimento. Não demora, vem uma gerente e consulta se preciso de alguma coisa, se quero água, biscoitinho, cafezinho, o que for. Penso nos velhos tempos e quase digo: você! Quero você, minha linda! Mas logo recupero o bom senso e reconheço a vulgaridade de imtempestiva declaração. Enquanto a maioria das agências está sempre lotada, há as em que não se perde tempo algum.  Nessas, não vou.

Na última vez que fui ao supermercado me abordaram com uma novidade. Foi criado um sistema de delivery. Basta telefonar e num prazo máximo de quatro horas a mercadoria estará em sua casa, mediante pequena taxa. A mocinha não entendeu meu desprezo pela novidade. Como ficariam minhas tardes sem o desfile à porta da academia?

Flávio Tiné, 76 anos, jornalista e escritor.

 

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