Mobilidade e Saúde, grande encontro da AHPAS

 

Tema emergente a questão da mobilidade urbana, especialmente em grandes centros urbanos, como é o caso de São Paulo, enfrenta gargalos enormes. Trânsito impraticável, mais carros que o viável, a falta de sistema público de transporte em quantidade e qualidade adequadas – estou falando de ônibus e, principalmente, de metrô, a falta de incentivo e infra-estrutura para a prática do ciclismo e da caminhada – as calçadas, em sua maioria, são esburacadas e tem todo tipo de obstáculo – árvores, escadas, canteiros etc – que dificultam ou até inviabilizam que pessoas idosas andem com segurança e que cadeirantes possam se locomover.

Outro público excluído dessa malha é o composto por pessoas que enfrentam doenças (com o câncer – que implica, muitas vezes, na locomoção de grandes trajetos para fazer uma quimioterapia ou radioterapia buscando tratamento; e tantas doenças crônicas (a exemplo de Parkinson, DPOC, vítimas de complicações de afeções como um derrame ou de acidentes). Caso – bem conhecido – como o de Mara Gabrili,

 RESULTADOS DO I FÓRUM AHPAS DE MOBILIDADE E SAÚDE                                           APONTAM PARA A NECESSIDADE URGENTE DA AMPLIAÇÃO DA                                       DISCUSSÃO SOBRE DIFICULDADES DE DESLOCAMENTOS NAS                   GRANDES CIDADES, PARA QUEM BUSCA TRATAMENTO MÉDICO 

Evento – realizado pela Associação Helena Piccardi De Andrade Silva (AHPAS) – contou com as participações de vários especialistas das áreas de transporte, saúde e mobilidade urbana

No último dia 10 de abril, a mobilidade urbana e suas relações com o sistema público de saúde foram o tema do I Fórum AHPAS de Mobilidade e Saúde, realizado pela AHPAS – Associação Helena Piccardi de Andrade Silva – organização que há 15 anos cumpre sua missão de oferecer transporte gratuito e apoio sociofamiliar a crianças e adolescentes em tratamento de câncer.

 Com uma intensa programação com palestras e debates, o evento realizado no Itaú Cultural discutiu e propôs novas ações e alternativas para o tema. A principal conclusão apontada pelos participantes foi a necessidade da ampliação das discussões sobre as questões da mobilidade urbana e saúde, com objetivo de chamar a atenção da sociedade de maneira geral para os percalços impostos a quem necessita buscar tratamento médico nas grandes cidades.

Manhã – Abrindo o evento, Tatiana Piccardi, presidente e fundadora da AHPAS, deu as boas-vindas ao público e anunciou a participação de Jefferson Lima de Souza e Renan Cássio de Souza Ayres, dois pacientes atendidos pela organização que têm em comum, além da luta diária por melhoria da saúde, a dificuldade proporcionada pela distância entre seus lares e os locais de tratamento. Ambos cadeirantes e moradores da periferia de São Paulo, eles puderam expor ao público as dificuldades impostas pela falta de planejamento da cidade a quem tem dificuldade de locomoção, além das barreiras no transporte. Jefferson e Renan ressaltaram a importância do trabalho da AHPAS para que seguissem com seus tratamentos.

Em seguida, abrindo a primeira mesa do evento, no período da manhã, os doutores Gonzalo Vecina Neto (Superintendente Corporativo do Hospital Sírio-Libanês), Sérgio Antônio Bastos Sarrubbo (Diretor do Hospital Infantil Darcy Vargas) e Vicente Odone Filho (Coordenador-Clínico do ITACI, Pediatra e Hematologista do Hospital Albert Einstein e Diretor-Presidente da Fundação Pró-Sangue, além de membro do Comitê Consultivo da AHPAS) discutiram o tema “Sistema de saúde, câncer e mobilidade”, com mediação de Luciana Monteiro, vice-presidente da AHPAS.

Dr. Vecina, um dos mais importantes nomes da gestão de saúde do país, falou sobre as perspectivas do SUS em um ano de crise. “O sistema de saúde está muito fragmentado e medicalizado. É preciso também termos clareza sobre o conceito de bem estar social e do papel que cabe ao Estado na regulação das tensões sociais”. Em seguida foi a vez do Dr. Odone Filho expor suas reflexões sobre o tratamento atual do câncer, da realidade ao anseio. “Temos 10 mil novos casos de câncer pediátrico ao ano no Brasil. O câncer continua figurando como terceira causa de mortalidade no país. Precisamos fortalecer o enfrentamento desse desafio”.

Encerrando a primeira sessão de apresentações da primeira mesa, o Dr. Sarrubbo fez uma ampla explanação sobre o SUS e o Hospital Darcy Vargas, que dirige. Acessibilidade, contrastes da cidade de São Paulo nas questões de transporte, e infraestrutura que vai do moderno ao caótico permearam suas considerações. Porém, o médico ainda fez questão de ressaltar que “apesar das dificuldades, o Hospital Darcy Vargas é privilegiado por contar há 15 anos com a parceria da AHPAS, com mais de 50 pacientes atendidos com chance de serem curados”.

Atende – Após os convidados da primeira mesa encerrarem suas colocações, Altair Neri Bezerra, da  superintendência de Serviços Especiais da SP Trans – o Atende – e representante da Secretaria de Transportes de São Paulo no evento, apresentou detalhadamente o trabalho do órgão, que atualmente possui uma frota de quase 400 vans e 89 táxis adaptados, que prestam serviços exclusivos ao programa com autorização para trafegar por corredores e faixas exclusivas de ônibus.

De imediato foi notada a paridade dos serviços prestados pelo Atende e pela frota de sete veículos da AHPAS. Uma questão chamou a atenção do público foi imediatamente levada à discussão: por que a frota do programa da Prefeitura tem essa autorização especial para trafegar em faixas exclusivas e a AHPAS não, já que ambas prestam um serviço tão correlato? Vale ressaltar que a AHPAS já obteve, em caráter provisório por um ano, essa autorização, que não foi prorrogada.

Após um coffee break, foi a vez de o apoio ao paciente com câncer e a mobilidade ser o tema discutido na Mesa 2 pelos palestrantes Iara Cristina Dieb (Assistente Social do GRAACC e da Prefeitura Municipal de São Paulo), Dr. Renato Melaragno (1º Secretário da Diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica) e Eliane Lemos Ozores (diretora de gestão da associação Entre Rodas, substituindo a Silvia Naccache, Coordenadora Geral do Centro de Voluntariado de São Paulo), num bate-papo esclarecedor mediado por Margarete Melemendjian,voluntária responsável pelo Serviço Social da AHPAS.

Nesta mesa vale ressaltar a participação do Dr. Melaragno que reforçou a importância da regionalização, sempre que possível, para aproximar distâncias entre a moradia do paciente e da unidade de atendimento de saúde, como é o caso do Hospital Santa Marcelina que atende a população na zona leste da capital. Iara Dieb, do GRAACC, disse que é fundamental a dignidade no transporte de crianças e adolescentes com câncer também para minimizar o sofrimento durante o período de tratamento. E a psicóloga Eliane contou alguns exemplos do apoio oferecido, há longa data, pela associação Entre Rodas e destacou os desafios que cadeirantes enfrentam numa cidade como São Paulo. “Com freqüência”, disse, “num trajeto entre a casa do paciente até um hospital, a falta de adaptações para circulação de uma cadeira de rodas é gigantesca”.

Tarde – O tema “Por uma cidade acessível. Por uma cidade com mais saúde”, voltado às questões urbanas da capital paulista deu início à programação do período da tarde, na Mesa 3. Expuseram suas opiniões e pontos de vista os palestrantes Maísa Kairalla (Diretora Científica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia-SP), Marcos de Sousa (Jornalista formado pela USP e Editor do Mobilize Brasil) e Thiago Benicchio (Gerente de Transportes Ativos do ITDP Brasil, 1º Diretor Geral da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo e autor do documentário “Sociedade do Automóvel”), sob mediação da jornalista Lina Menezes.

Maísa Kairalla focou suas considerações nas limitações causadas por doenças e pela idade com a longevidade, além dos problemas da existência de uma sociedade com mais idosos do que jovens – fato que passa a ocorrer no Brasil num futuro próximo, diminuindo cada vez mais as taxas de natalidade e mortalidade. A especialista apresentou números e projeções futuras que chamaram a atenção do público: “Em 2009, no Brasil, 16 milhões de pessoas eram idosas. Em 2025 teremos 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade. Num ritmo muito acelerado vamos inverter a pirâmide: São Paulo tem atualmente 20% da população composta por jovens. Em 2030, 20% da população será de idosos. E não estamos preparados para atender essa inversão”.

Já Marcos Sousa, do Mobilize Brasil, destacou como as grandes cidades brasileiras adoram ao longo dos anos a políticas públicas que favoreceram o crescimento da frota de automóveis, em detrimento dos transportes públicos, bicicletas e pedestres. Na mesma linha de raciocínio, Thiago Benicchio, depois de expor os transtornos para as metrópoles que adotam o automóvel como principal meio de deslocamento, reforçou que é momento de mudar os paradigmas. “As pessoas deveriam ser desestimuladas a sair com os carros, mas o que vemos é que o automóvel ainda é o item que mais tem benefícios no sistema atual”.

Encerramento – Por fim, encerrando o I Fórum AHPAS de Mobilidade e Saúde, a deputada federalMara Gabrilli (fundadora do Instituto Mara Gabrilli e apoiadora do evento), realizou palestra destacando novas ideias e projetos para facilitar o acesso da população aos sistemas de saúde e transporte públicos de maneira integrada e eficaz. Mara contou também sua história e luta para promover melhoria à população que tem restrições de mobilidade.

Para Tatiana Piccardi, “o Fórum AHPAS de Mobilidade e Saúde expandiu a discussão, tratando do problema do deslocamento de pessoas com câncer e também de demais pessoas com comprometimentos para deslocarem-se, procurando possibilidades de tornar nossa cidade e seus sistemas de transporte e saúde menos hostis ou indiferentes à fragilidade física”.

Como um primeiro e importantíssimo resultado para a AHPAS, ficou agendada reunião da presidente da AHPAS, Tatiana Piccardi, com o Sr. Altair Neri Bezerra, da superintendência de Serviços Especiais da SP Trans – o Atende – a fim de alinhar uma parceria, já que os serviços prestados por ambos possuem grande sinergia e o mesmo foco. O objetivo do encontro será alinhavar maneiras de a AHPAS e instituições com o mesmo perfil tenham o direito de trafegar nos corredores e/ou faixas exclusivas.

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INFORMAÇÕES À IMPRENSA

Sylvio Novelli – Assessoria em Comunicação

Com Sylvio Novelli, Fausto Cabral e Caio Parente

 

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