MANOEL DE BARROS SE ETERNIZA

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O poeta Manoel de Barros e sua esposa, dona Estela

O fatídico 13 de novembro de 2014 entra para a história por ter sido o dia em que o maior poeta da língua portuguesa se eternizou. E por maiores homenagens estejam sendo feitas ao Poeta – como Manoel de Barros era carinhosamente chamado pelos que o estimavam –, ainda terá sido pouco diante da magnitude da alma, do ser humano, que, ao atravessar quase um século com discrição e comedimento, nos presenteou, com a genialidade, a graça e a generosidade de um menino travesso, inesgotáveis gestos-mensagens de dignidade humana sem igual.

Pois este despretensioso depoimento não tem outro propósito que o de compartilhar um testemunho das dimensões gigantescas do espírito iluminado chamado Manoel de Barros – sem dúvida, poeta singular, mas, sobretudo, ser humano inigualável, de humildade genial e infinita. Não por acaso, avesso a todo tipo de salamaleques despropositados, abundantes em nossos tempos de um provincianismo global contra o qual se insurgira, ainda que involuntariamente, com o cosmopolitismo de sua singeleza universal.

Graças ao jornalista Luiz Taques, tive a honra de partilhar preciosos e eternos minutos de sua marcante companhia, ao lado de sua inseparável Companheira, Dona Estela, em 2011. Na época eu me recuperava de um problema de saúde e o Taques resolvera me presentear com algo inimaginável – um encontro com o Poeta, mas sem alardes, nem recomendações. Gentil, espirituoso e de uma generosidade ímpar, Manoel de Barros e Dona Estela nos acolheram carinhosamente. Aquele sorriso com o qual marcou sua profícua passagem pela Terra é constante, espontâneo e até confortante, parecendo dizer: esteja à vontade.

É redundante dizer que foi um verdadeiro bálsamo aquele memorável encontro. Recém-saído do hospital, eu trajava bermuda e chinelo de dedo, logo em Campo Grande, onde dias antes passara por um constrangimento ao tentar, na companhia do também generoso Professor Masao Uetanabaro, degustarmos a culinária corumbaense num sofisticado restaurante da capital, onde os garçons nos ignoraram com o maior acinte. Outro aspecto do comportamento de Manoel de Barros que me impressionou é a irreverência, tipicamente pantaneira: quando Taques me apresentou como “turco-boliviano” (por conta de alguns trabalhos feitos em outros tempos), ele deu uma gargalhada gostosa, de lembrar dos bons tempos da inocência corumbaense, de cuja fonte o Poeta bebera na infância. E quando soube de um projeto editorial em pleno Pantanal, aí não se conteve: “É louco!” Um sábio em linguagem talentosamente poética…

No fugaz (mas eterno, pela emblemática pessoa que foi) momento compartilhado, não deixou de se referir com carinho filial à nossa Corumbá de todos os encantos. Com aquela sedutora maneira corumbaense de referir-se às pessoas conhecidas, ele, bem ao seu estilo twiteriano de falar, revelara o afeto e a saudade de um de seus berços pantaneiros. Parte da Corumbá cosmopolita que testemunhou as primeiras proezas do Poeta segue com ele para a eternidade, de onde, por certo, continuará a iluminar, sobretudo ao pôr do sol, os céus pantaneiros de agora em diante.

* Por Ahmad Schabib Hany – é professor substituto de Licenciatura em História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) / Campus do Pantanal (CPAN), em Corumbá, MS. Traduziu o poema Águas, de Manoel de Barros, para o espanhol.

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