Manoel de Barros, pura delicadeza aos 97

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manoel de barros por regina utsumi

O CARTEIRO E O POETA

De repente, começou a chover forte na Pequena Londres, no meio da tarde. Fui fechar a janela da sala e vi um carteiro prestes a ser ensopado do outro lado da rua.

Desci rápido pelos degraus da casa, abri o portão da garagem e o convidei para entrar. Ele aceitou, mas preferiu ficar na varanda; arranjei-lhe um banquinho e um livro.

Quando o temporal passou, quarenta ou cinquenta minutos depois, ele me chamou, agradeceu pela acolhida e, ao perceber que se preparava para me devolver o exemplar, então, eu disse que ele podia levá-lo, pois era um presente de Natal, dado de coração.

O carteiro agradeceu e saiu feliz, sorrindo, falando: – Vou continuar a ler ainda hoje, porque – sabe, senhor? – sou formado em Letras e já devorei mais de trezentos livros, e este aqui, ó, está entre os melhores que li.

E o carteiro foi embora carregando junto a suas cartas O guardador de águas, um dos grandes livros de Manoel de Barros.

Na mesma hora, liguei para o poeta e contei-lhe o ocorrido. selo manoel de barros3

Ele riu com aquela sua risada gostosa e, em seguida, veio com essa na invencionice deste conto curto: – Para demonstrar sua eterna gratidão por não ter levado chuva pesada no lombo, o que um danado de um carteiro não é capaz de nos dizer logo após um dilúvio, não é mesmo?

“Ô, poeta!”, respondi-lhe de imediato e ainda ficcionalmente: “Como esse carteiro, dezenas e centenas e milhares de outras pessoas pelo Brasil afora apreciam a sua literatura e sorvete de guavira.”

– Passar bem, Barros gentilmente me respondeu.

Porém, acrescentou:

– Acredito no que você fala, já que sei que quem aprecia sorvete de guavira e que lê poesia de boa qualidade é como pássaro criado solto na natureza: nunca perde o paladar refinado!

(E olha que, antigamente, entre um chope e outro, Manoel de Barros sempre me disse que ele era fraco para elogios.)

(Foto: Regina Utsumi)

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