Influência do Jazz – por Flávio Tiné

 

Beirando os 78 anos, uma das coisas que mais lamento é não ter tido a oportunidade ou a iniciativa de ouvir mais música. Essa ideia me ocorre sempre que revejo Sarah Chang interpretar o Concerto nº 1 para violino e orquestra de Paganini, sob a regência de Zubin Mehta.

O som alimenta o espírito, emociona e provoca imediata sublimação. À medida que o tema melódico se repete, em diferentes tonalidades ou modulações, a gente se enleva numa agradável sensação de conforto. A expressão de sofrimento, no caso da jovem e talentosa intérprete, transmite algo indecifrável. Mesmo não sendo profundo conhecimento do assunto, frequento a Sala São Paulo como se fosse um experto. Só não peço desculpas aos verdadeiros conhecedores desse mundo encantado porque até onde sei, a arte é para todos, inclusive para os que não a dominam completamente.

Às vezes tento descobrir de onde vem essa atração pela melodia. Talvez da banda musical que tocava ao amanhecer em dia de festa da padroeira da minha cidade. Nessa banda, cheguei a me iniciar em partitura, desistindo antes de ser selecionado para tocar um instrumento. Na casa de minha família não havia piano nem obras de arte à disposição. É verdade que meu pai tocava violino no coro da igreja, mas nunca me convidou para tocar um instrumento, sequer insistiu para continuar tentando entrar na Sociedade Musical XV de Novembro.

Lembro-me de um serviço de alto-falantes que tocava valsas e boleros durante o dia e a Ave Maria de Schubert às 18 horas. Eventualmente, na Semana Santa, tocava alguns clássicos, desses bem manjados, tipo O Guarani, de Carlos Gomes. No Ginásio havia uma ou outra menina que tocava piano em datas festivas. Nada além de um Noturno, de Chopin.

Não conhecia o âmago do jazz – o que descarta, finalmente, qualquer influência à João Gilberto. Apesar disso, fui guindado um dia à condição de membro da Associação Paulista dos Críticos de Arte, na área de música popular. A revista Intervalo e o jornal A Gazeta concediam espaço para minhas elocuções. Ouvia de tudo e lia o máximo, sem prejuízo do dia a dia. Depois, dava minha opinião como se fosse um crítico.

Do recifense Teatro Santa Isabel ao paulistano Teatro São Pedro tive a oportunidade de ouvir grandes mestres. Agora, com as facilidades eletrônicas, podemos escolher a obra e escutá-la na íntegra ou em partes, como nos ensaios. Uma dádiva que precisa ser desfrutada.

 

*Jornalista; assessor de imprensa do HCFMUSP durante 21 anos.

 

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