Estamos preparados?!…

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Primeira notícia do dia: um amigo partiu. Délio César, um jornalista dos melhores, um mestre de muitos, um cidadão honrado, um amigo querido que já deixa saudade. Muita.

Penso, aqui, com o coração doído pela perda e pela tristeza que abate família e todos ao redor, que a morte, apesar de inexorável, não é tema recorrente. Nem na mesa de almoço de domingo, nem nas rodas na mesa de bar, nem no fim de jogo e torcida, nem na sala de aula, em lugar algum.

Não gostamos de falar sobre. Fugimos, na maioria das vezes, quando ela nos ronda ou a alguém que amamos. Nem assim a enfrentamos na tentativa de nos prepararmos para este curso que faz parte da vida.

 

Um dos grandes dilemas é que, por sermos, talvez, extremamente egoístas, pois temos a capacidade de desenvolver o gostar, não admitimos o não ver mais, o não sentir mais, o não conversar mais. Nunca. E a depender da crença e da fé que se pratica, esse nunca é um lugar tão distante que, por vezes, no imaginário, nem existe. E por isso a inconformação.

O não saber para onde vai, como estará, se fará festa no céu, se encontrará outros amigos nossos que partiram, se está feliz (e talvez esteja, pois – especialmente quando se parte por doença e sofrimento – o alívio é um fato)… é uma incógnita, com a qual não sabemos lidar.

Afinal, nessa cultura nossa – a brasileira – morte é uma palavra quase impronunciável.

 

Bem querer

Depois de algumas lágrimas, aqui derramadas (sou chorona mesmo!), respirei fundo, pensei no Délio, no meu pai que partiu há pouco mais de 8 anos, em outras pessoas queridas que já nos deixaram, em tanta gente que me escreve e relata suas dores, seus amores, suas perdas… e como as superam… e resolvi manifestar-me aqui, agora, um pensamento que invadiu minh’alma…

 

* Somos, talvez os únicos (será?…rs), com consciência de que, ao nascermos, um dia, morreremos.

* Não sabemos quando, como, em função do que… mas, o sabemos.

* Essa certeza – a da partida – deveria nos fazer melhores, no mínimo, para viver mais intensamente… cada dia, um dia. Aproveitando ao máximo as alegrias, as amizades, a construção de relacionamentos, de saberes, de coisas que nos fazem bem.

* E diante da morte (palavra que deveríamos pronunciar com mais naturalidade, pois é comum a todos nós), quando nada podemos mais fazer pelo amigo em vida, podemos praticar uma nova atitude. A de querer bem a quem partiu (independentemente pra onde!), a de pensar-lhe com saudade e amor, a de tranquilizar, assim, com boa energia, a família que fica, os amigos que ficam, as pessoas que só o conhecerão por histórias… pelo legado, pela obra que deixa…

 

*** Ao Délio César, meu carinho e meu bem querer nesta e em quaisquer outras vidas que, porventura, ele se aventure! Aos familiares, minha força. Aos amigos, minha solidariedade.

 

Tomo a liberdade, agora, de compartilhar o escrito de hoje do irmão, Lélio Cesar, a quem também amamos…

(foto por Regina Menezes) 

DÉLIO PARTIU.
Com pesar e muita tristeza no coração, comunicamos aos amigos que Délio acaba de partir para outra dimensão. 09-02-2015, 6h30m.
Dever cumprido, chegou a hora do descanso merecido do guerreiro.
“Combateu o bom combate, venceu a carreira, guardou a fé”. Fé num mundo melhor para o qual lutou durante toda a sua vida, fé no ser humano que sempre procurou melhorar.
Não temos ainda mais detalhes sobre velório e enterro, mas provavelmente será na Câmara Municipal. (Londrina, Paraná)
Abaixo, um soneto que ele gostava muito do Vinícius de Moraes, e o agradecimento da família pela imensidão do apoio recebido até aqui.

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes

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