E o cantor Zé Rico deu uma bronca no cara, por Luiz Taques

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Há exatos 30 anos, em 1985, eu assisti a um show da dupla Milionário e José Rico: foi em Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. Localizado na fronteira com o Paraguai e divisa com o estado do Paraná, Mundo Novo era um dos tantos municípios brasileiros considerados como sendo área de segurança nacional. À época, a ditadura militar, instalada em 1964, chegava ao fim, e, naquele ano, os eleitores de Mundo Novo, após longo período sem poderem ir às urnas, teriam a chance, democrática, de elegerem o seu prefeito. Os candidatos, daquele pleito, eram como quase todos os candidatos pelo país afora: uns medíocres; de espírito público, devemos reconhecer, eles nada ficam devendo ao quadro nacional atual. Eu me encontrava a serviço, na cidade, como repórter – o primeiro escalão do governo do estado de Mato Grosso do Sul, também; foi um coordenador de comunicação estadual, não me lembro agora o nome, quem me disse que, após o comício, haveria um show. Cansado, eu nem iria, naquela noite, sair do hotel. Mas o assessor perguntou: “Vai perder Milionário e Zé Rico?”. Então, fui lá, vê-los cantar; e os dois cantaram bonito, com entusiasmo e com alma. Milhares de fãs, que encontravam-se na praça, acompanhavam, igualmente emocionados, suas memoráveis interpretações. Com o sucesso, “Estrada da vida”, a dupla já era famosa até na China. Acabei assistindo ao show no palanque, pertinho dos dois astros da música sertaneja. Eu, concentrado; o baixista da dupla, não. O instrumento musical dele parecia estar desafinado. Lembro-me perfeitamente: Zé Rico, de frente para o público, cantava. Virava, em seguida, para o seu músico, e o xingava: “Vou te dar uma porrada na cara; afina logo essa merda aí”. Zé Rico, como todos devem saber, usava grandes óculos escuros, mas o músico devia conhecer os seus olhos de bravo quando ele ficava contrariado. E como ele ficara contrariado naquela noite. E como ele cantava bem, mesmo com toda aquela contrariedade. Acho que se superara. E quanto mais ele esculhambava o integrante da banda, mais o rapaz ficava nervoso. Atônito com o que estava acontecendo, o músico não conseguia obter a afinação adequada do baixo. Alguém do público percebia aquilo? Não; claro que não. Os que estavam no palanque percebiam? Acho que só os mais atentos, ou os mais próximos, pois Zé Rico era talentoso até na hora de dar uma bronca num colega de trabalho; coisa de profissional que zelava por aquilo que fazia. Confesso que, desde aquele extraordinário show, nunca mais deixei de ouvir Milionário e Zé Rico.

(Luiz Taques, escritor)

(foto: divulgação)

(O músico sertanejo José Rico morreu, terça-feira, 3, de infarto do miocárdio, aos 68 anos e deixa uma belíssima obra e saudades)

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