Desabafo…

4

Estou triste?! Mais brava. Mais indignação, que tristeza.

Soube de + duas histórias, agora há pouco, que, somadas a uma coleção que venho coletando, transbordaram meu pote de paciência.

Uma pessoa com 72 anos de idade, no serviço público de saúde, na maior capital do país, disse-me com um olhar pro infinito da resignação: ‘deixe pra lá, minha filha, nós não servimos mais. Só nos resta morrer’.

Um jornalista competente, cidadão do bem, que atuou nos maiores veículos de comunicação, inclusive na tv Globo – onde o conheci trabalhando lado a lado – foi recusado para uma vaga de assessoria de imprensa por acumular idade. E o acúmulo de experiência, de expertise? Só tolos não enxergam o óbvio!

Somos um país longevo na sua capacidade de já ter seus brasileiros e brasileiras com oportunidade de vida na casa dos 80. Isso, na média, pois, temos, cada dia mais, centenários lúcidos – tenho entrevistado alguns deles para meu livro. Histórias emocionantes. Ricas na essência.

Há longa data abracei como causa a questão da longevidade. Pelo prisma de como podemos viver por mais tempo, porém, com mais qualidade de vida e felicidade! E sem desassociar a honra e a dignidade.

Como podemos continuar contribuindo no mercado de trabalho quando mais estamos prontos?? Se empresas colocam como critério de corte ter no máximo até 35 ou 40 anos??

Como intercambiar experiências intergeracionais? A composição entre gerações só acrescentaria em todas as áreas, da Engenharia à Medicina, dirá à Educação!

Como melhorar o atendimento à saúde e motivar, na prática, a prevenção? Não há geriatras suficientes para atender a demanda de pessoas acima de 50 anos!

Há um despreparo atroz nos profissionais que atuam no universo complexo da saúde (faltam treinamento, verbas, equipamentos, remédios, procedimentos não medicamentosos, falta até minimamente saber lidar com o idoso que chega ao serviço – ele, por uma questão orgânica natural, ouve menos, anda mais devagar, nem sempre deita e levanta de uma maca de exame com desenvoltura e sozinho!!!).

Estou batalhando para implementar e regularizar no país os procedimentos do chamado Testamento Vital, com as decisões de cada um expressas e a serem garantidas. Quebro pedra, todo dia, nesse processo. Enquanto isso, não podemos, portanto, escolher garantir dignidade no fim da vida, se assim preferirmos, ao invés de corrermos o risco de vegetarmos por longo tempo alimentados por máquinas avançadas, mesmo contra a nossa vontade, por exemplo.

Sem falar nos casos que visitei e vi, com meus próprios olhos, de pessoas com 70, 80, 90 anos, que foram espancadas, presas em amarras e estão esqueléticas no corpo e na alma, vítimas da violência desumana.

Por favor, amanhã seremos os idosos de hoje. A única possibilidade de não sermos ridicularizados e humilhados, nesse amanhã, é se morrermos antes!

Por favor, a nossa pirâmide populacional será invertida em pouco tempo. Teremos mais pessoas idosas que jovens neste país. E não temos infraestrutura física nem emocional pra essa nova realidade que já bate à nossa porta!

A previdência vai implodir! A conta não fecha com nenhum matemático, por mais brilhante que seja. Não há milagres! Quais as saídas? A aposentadoria é, culturalmente, insuficiente. Não banca a sobrevivência e fragiliza o cidadão que teve sonhos, esperanças, labutou feito louco, criou filhos, votou, brigou, cumpriu mais obrigações e deveres do que teve de direitos….

Não há casas de repouso, moradias, hotéis, dê-se o nome que queira, para abrigar a pessoa desamparada financeiramente ou adoentada e sem possibilidade da família acolhê-la, ou aquela que simplesmente quer um canto só dela, com as adequações que a própria idade avançada requer.

Esses estabelecimentos são poucos e funcionam, na maioria, mal e precariamente. Não temos sequer regras, legislação e fiscalização para impor um funcionamento profissionalmente digno e correto. E, claro, punir e fechar os picaretas e quem abusa dessa população.

Precisamos – e tenho me somado ao movimento das pessoas com deficiência –criar novas leis e fazê-las serem implementadas na prática. Uma pessoa em cadeira de rodas não consegue exercer o direito de ir e vir pelas calçadas esburacadas, pela falta de rampas e equipamentos de adequação. E essa necessidade também é a da pessoa idosa!

Tenho estado em muitas rodas de conversas sobre a problemática do envelhecimento no Brasil. Tenho recebido muitos convites e passei a participar de conselhos, núcleos, sociedades médicas e entidades que atuam no segmento. Tenho buscado conhecer práticas, saber ouvir todos os lados, diagnosticar problemas e gargalos e, nesse processo, tenho podido desenvolver ações muito interessantes. Há muita gente e instituições fazendo muita coisa boa. Aliás, muitos deles farão parte do conteúdo de um livro/documentário que também estamos preparando para dar visibilidade às boas experiências.

Tenho entrevistado muitos – governantes, celebridades e anônimos.

É incrível, mas, ao ficarmos mais velhos – na idade -, somos muito semelhantes. As fragilidades e os medos são parecidos. E só aí nos damos conta do quanto não estamos fazendo (ou estamos fazendo quase nada) pra enfrentar melhor esse desafio e construir novos caminhos e ações para acolher e valorizar cada pessoa que, por mérito, passa dos 50 anos… e vive mais, bem mais….

*Muitíssimo obrigada! bjs

Lina Menezes

 

 

 

 

4 Responses

    • Lina Menezes

      Nem sei se agradeço, querida amiga Mara!! Pois adoraria que eu estivesse enganada ou, no mínimo, que estivesse aqui falando apenas do lado positivo de uma realidade brasileira que pudesse estar acolhendo esse nosso envelhecer (que envereda, já, por todas as classes sociais)! bjs com carinho pra vc!! Obrigada por seu comentário aqui!!

      Responder
  1. Flávio Tiné

    Desta vez a linda Lina Menezes foi longe demais. Jovem ainda, escreve como anciã, no sentido da vivência. Aqui e ali. algum lance de derrota, como se estivesse perdendo a causa que abraçou. Em seguida, retoma o entusiasmo e pede a colaboração de quem quiser colaborar, o que significa que não desistiu.
    Ao ler tais comentários remeto-me a meu próprio caso, de egoismo explícito. Tenho pensado tanto na minha incapacidade galopante que nem me animo a pensar nos outros. Repito com frequência minha própria desgraça: é o fim da picada. E o que mais temo, no momento, é passar a depender inteiramente de cuidadores. Estou quase chegando lá.
    Preciso pensar e repensar tudo, a partir destes brilhantes comentários.

    Flávio Tiné
    16/06/2015
    flavio.tine@gmail.com

    Responder
    • Lina Menezes

      Querido amigo Tiné, tenho muita admiração por vc! Tanto pelo competente profissional, quanto pelo homem generoso nesta trajetória até aqui! Sei que não somos de desistir. Somos feitos de uma matéria que luta, briga, crê, revê, reinventa e faz! Conte comigo! Eu, desabafo, com o respeito a cada um de vcs e para que, em sinergia, possamos estar cada vez mais próximos e determinados. Minha ausência é temporária, sempre por poucos dias. E volto, fortalecida! Acredito, realmente, em mudarmos o jeito de vivermos o envelhecer. Experimentar, por direito, a certa altura da vida, alegrias com dignidade! abraço afetuoso pra vc!!

      Responder

Publique aqui um comentário, dúvida ou sugestão