BEM VELHINHO, por Lucas Mayor

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A morte, essa coisa indecente, apareceu pela primeira vez quando eu tinha dez anos. Eu tinha um cachorro, o Van Damme. Lembro precisamente das palavras do meu pai quando ele me entregou o bicho: “Pra você aprender a lidar com a morte”. Com dez anos eu não fazia ideia do que ele tava falando, mas ele me deu um cachorro, caramba. Um garoto de dez anos com um cachorro é a própria ficção. Eu tava dentro de um romance do Mark Twain. A gente fazia de tudo. Ele era malhado, um vira-lata de primeira grandeza. Foi atropelado por um Kadett vinho na rua de casa e não teve tempo de crescer. Eu vi a coisa toda tomar forma. É o de sempre: um garoto gritando diante da imponderabilidade do mundo. No filme “Memórias”, de Woody Allen, ele se depara com um coelho morto na pia da cozinha. Aquilo evoca nele o que evoca em todos nós quando vemos alguém morto: tudo que é vivo morre. E o pior: eu também vou morrer. É aquilo que chamam assepticamente de ‘a consciência da morte’. Tomar consciência dela não elimina o fato de que ela é indecente.

A Rafa tava de papo com uma nova amiga. Eu tenho o hábito reprovável de prestar atenção na conversa das outras pessoas. Eu prefiro ouvir a falar. A menina tinha perdido o pai recentemente. Ela falava dele como se ele tivesse saído de férias ou algo do tipo. “Ele morreu, coitado. Ele sempre me pegava na escola”, ela explicou. Aquilo me arrasou. Ele nunca mais vai poder aparecer na porta da escola, coitado. É um termo horrível pra ser associado à morte, coitado, mas ela tem razão. É uma pena que as pessoas tenham que morrer e que a gente tenha que sobreviver à morte delas. Isso é o mais irônico da vida: a gente continua vivendo. Boa parte do que a gente ama morre, e continuamos, apesar de tudo.

“Eu sei que você vai morrer um dia, mas falta muito tempo. Você vai ficar bem velhinho”, a Rafa diz.

Espero que ela tenha razão. Bem velhinho. Eu quero poder pegá-la na escola mais algumas vezes.

 

 

(na foto, Rafa, filha de Lucas)

 

 

 

* Lucas Mayor é escritor e dramaturgo (https://www.facebook.com/lucas.mayor.1)

2 Responses

  1. Saíde Nair Benute

    Lucas, um consolo filosófico de escamotear a indecência da morte é pensar: ” Eu não tenho medo de você, oh morte! Porque onde você está eu não estou, e, quando eu estiver você não estará.

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