Aruko, a senhora das orquídeas

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Se palavras não foram inventadas para serem desperdiçadas, como diz, a certa altura do enredo, um dos personagens do competente livro “Nihonjin”, de Oscar Nakasato, a figura central desta história, Aruko Utsumi, também fala, com sabedoria, nesta entrevista, que água de chuva, igualmente, não pode ser desperdiçada.

Porque água de chuva, segundo Aruko Utsumi, é a melhor água que existe para se regar orquídeas. “Reparei, com o tempo, que as minhas orquídeas ficavam mais bonitas, mais vigorosas, quando eu molhava com água que armazenava das chuvas”, ela conta.

Aliás, Aruko Utsumi, moradora da região Sul de Londrina, poderia muito bem fazer parte do romance de Oscar Nakasato, o escritor que ganha a vida dando aulas na Universidade Tecnológica do Paraná – ele é lotado no câmpus de Apucarana (Norte do Estado).

Pois, feito Kimie, protagonista do livro “Niihonjin”, obra vencedora do Prêmio Jabuti de 2012, Aruko Utsumi, da mesma forma, é uma mulher sensível. E só mulheres sensíveis são capazes de trabalhar, com originalidade, um orquidário, por exemplo.

Já que orquídeas são flores, e flores são plantas delicadas – por isso, é preciso ser delicado e ter paciência para lidar, cotidianamente, com elas; e paciência e delicadeza parecem ser duas coisas enraizadas na alma dessa senhora de olhinhos puxados e miudinhos. Porém, olhinhos penetrantes feito pétalas de orquídeas a nos revelarem serenidade e muita beleza interior – das belezas, a interior, sem sombra de dúvida, ainda é a mais charmosa e atraente. E a que não cansa!

Às orquídeas, a senhora Aruko oferece um fino trato – e, com água de chuva, que é até melhor que água de torneira, haja vista que ela não possui produtos químicos, como cloro e flúor.

Choveu em Londrina, no ano passado, conforme levantamento do IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná), pouco mais de 1.460 milímetros, sendo agosto, com um milímetro, o mês que menos choveu, e, junho, ultrapassando os 344 milímetros, o mês com o maior volume de precipitação.

Quase todos os dias, exceto nos chuvosos, obviamente, a senhora Aruko molha as suas orquídeas – do jeito que a elas se refere, tudo leva a crer que plantas são mesmo feito nós: precisam apenas de pouco carinho para florir. “As orquídeas me proporcionam paz, e, lidar com elas, me traz muita tranquilidade de espírito”, salienta.

Funciona assim: quando chove, ela capta água em três galões de 10 litros cada um, em um galão de 20 litros e em dois galões grandes – a capacidade de cada galão grande é de 60 litros. Na casa da senhora Aruko, garrafas de refrigerantes vazias não vão para o lixo, para contaminar, ainda mais, o nosso solo, já que são utilizadas para estocar águas de chuvas, que ela já havia captado, e estão guardadas, provisoriamente, nos tais galões.

A senhora Aruko possui um montão de embalagens plásticas de 600 ml, de um litro e de dois litros – nelas, são armazenadas águas de chuvas. Antes, no entanto, ela lava e enxágua as garrafas com zelo e muita disposição. Com os recipientes, a olho nu, limpinhos, eles são, finalmente, envasados. A senhora Aruko não comercializa as suas orquídeas. E ela informa, inclusive, que nem sabe os nomes das espécies que produz no quintal de casa. “Não é muita coisa, não; trato dessas poucas orquídeas que tenho apenas por prazer”, adianta.

Brasileira, filha de imigrantes japoneses, a senhora Aruko nasceu em Lins, interior paulista, e, por lá, estudou até onde pôde: a quarta-série primária. Muito cedo, perdeu a mãe. Aos 13 anos, passaria a cuidar da casa e ajudar a criar os irmãos – dos seis, é a mais velha. Adolescente, ela, o pai e os manos mudaram-se para Mandaguari, cidade do Norte do Paraná, atraídos por um sítio de terra roxa, uma área propícia para a agricultura. Ela, no entanto, precisava aprender algo mais. Mulheres com razão de viver sempre querem aprender algo mais. É a sina elegante delas. Então, a senhora Aruko foi a São Paulo, fez um curso, e, retornando à Mandaguari, abriu uma escola sobre o que aprendera: corte e costura.

Casou-se com Kenji Utsumi, e, posteriormente, ela e o marido foram instalar-se em Astorga, município próximo à Mandaguari. E, em Astorga, ela continuaria a trabalhar com corte e costura. Com os filhos já crescidos, Aruko e o marido decidem mudar para Londrina, onde o senhor Utsumi viria a deixá-la viúva. O casal teve cinco filhos; todos com formação universitária.

Agora, a senhora Utsumi prepara-se para a formatura dos netos – a duas ela já compareceu: na do neto que se graduou em Odontologia (USP/Bauru) e na do outro neto que se formou em Engenharia Química (Mauá/Grande São Paulo). Assim como as netas que cursam Ciências do Mar e Direito, o neto e a neta que fazem Medicina ainda estão longe de pegar o canudo.

Em Londrina, de janeiro até 19 de setembro deste ano, já choveu quase 1.355 milímetros. Mas, muita chuva há de cair, ainda, na cidade, e, muita água de chuva a senhora Aruko Utsumi ainda há de armazenar, para regar suas orquídeas, à espera da diplomação superior de seus dois netos mais novos que, atualmente, frequentam os ensinos Fundamental e Médio. Contudo, a essa espera, a senhora Aruko Utsumi dispõe de uma aliada invejável: a boa saúde.

Sem tomar remédio algum, a pressão arterial de Aruko Utsumi, para termos uma vaga ideia, crava, invariavelmente, no recomendável: 12 por 8; e os níveis de colesterol (bom e ruim) estão sempre normais. Nada mal para quem já completou 83 anos de idade. Também pudera: nem carne gorda a senhora das orquídeas come – a gordura ela usa para fazer sabão.

    (nota do FMB: Luiz Taques é premiado não é de hoje, por seu fôlego como jornalista investigativo. Na última fornada, o ótimo “Crônicas de uma grande farsa”, em parceria com o amigo jornalista José Maschio. Mas, alma grande que é, tem livro infanto-juvenil (“A história de Zé Vida de Barraca”), tem peça teatral (“Tereza é meu nome”), tem livros de contos (“O casamento vai acabar com o poeta” e “Bebinho, Mamadinho e o velório de Bafo de Alho”), e o precioso “Vaso de colher chuvas”, um traçado delicado, amigo íntimo que é, da vida e obra do  poeta Manoel de Barros. E vem mais por aí. Sobre as publicações: cronicadeumagrandefarsa@gmail.com e luiztaques@gmail.com. )

(foto por Regina Utsumi)

 

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