Aprendendo na Hospedaria de Cuidados Paliativos

 

 

Minha segunda visita à casa de ambientes claros, onde sorrisos e olhares atentos são premissa.

Numa sala de portas de vidro, uma mesa intensa. Médicos e profissionais da saúde liderados por Dalva Yukie Matsumoto. Médica oncologista de formação e que após atuar quase 30 anos atacando o câncer e ajudando a vida de pessoas, dedica-se desde junho de 2004 a paliativar. Cuidar do conforto e bem estar de gente com doenças crônicas progressivas e potencialmente mortais. 

Traduzindo: é um serviço pioneiro nos Cuidados Paliativos. Lá se cuida com enfoque amplo, com equipe multiprofissional, assistindo o paciente e a família de todas as dores e desconfortos. 

Em minha primeira visita, chorei. Um misto de emoção e angústia. O aprender a lidar com a morte é um processo complexo e enriquecedor. Porque vemos a realidade da vida, crua. E certamente o viver envolve inexoravelmente o morrer. 

Há muito venho lidando com este universo ao abraçar a causa das Diretivas Antecipadas de Vontade (Testamento Vital), dos Cuidados Paliativos e da Dignidade na finitude, o que não é fácil e exige muito conhecimento. 

Abracei a oportunidade de obter conhecimento ao voluntariar-me na Hospedaria de Cuidados Paliativos, coordenada pela querida humanista Dra Dalva. De sorriso aberto, ela conduz desafios com profissionais e com pacientes com uma franqueza firme e delicada ao mesmo tempo. Percebe-se um empoderamento de conhecimento e sensibilidade. 

Ali acompanhei um dia de reunião abrangente: a discussão de casos, condutas, conflitos, delicadezas familiares, inclusive, comentários de quem partiu, de quem resiste em ser acolhido na Hospedaria. O preconceito gerado pela desinformação ainda é grande. Há quem não queira se acomodar num dos dez leitos por negar o estadio da própria doença que lhe acomete. E nem sabe que está abrindo mão de ter sua dor total atendida adequadamente.

Aliás, dra Dalva me educa sobre os termos e os conceitos ali discutidos. Em plena discussão vira pra mim e explica que Dor Total é um conceito atribuído a Cicely Saunders, precursora dos Cuidados Paliativos. É o aliar da tecnologia à abordagem humanista, pois a dor abrange todos os aspectos da vida e que, portanto, devemos usar o modelo de assistência biopsicossocial para diagnosticar e tratá-la. Assim, a equipe estendeu o conceito de ‘total’ a vários outros sintomas. O que ela chama de ‘Sintoma total’, considerando aspectos e vivências do paciente, físicas, mentais, sociais e espirituais. 

Vi, na prática, a diferença que esse conceito ampliado faz. Conheci uma senhora que lá chegou com sonda de alimentação e que nem uma palavra dizia. Hoje, sem sonda, fala todo dia um pouco. 

Acompanhei da equipe a preocupação em acolher e esclarecer familiares de uma paciente idosa com câncer avançado, sem possibilidade de cura. O que médicos e equipe de várias especialidades não disseram a eles, a equipe da dra Dalva fez questão de explicar. Tudo, em mínimos detalhes. Só assim, diz a chefe, paciente com respaldo da família pode tomar decisões.

E as variáveis são muitas: o limiar é tênue diante das alternativas – a radiação, a depender do tamanho e da localização do tumor, por exemplo, pode amenizar ou intensificar os sintomas indesejáveis. Qual o desejo do paciente? O que é limite para ele? Ele prefere tentar absolutamente de tudo mesmo que piore sua qualidade de vida ou opta por priorizar o bem estar ainda que isso resulte num encurtar de seu período por aqui? 

O que eu faria? Não tenho respostas. Só sei que tenho aprendido muito ao poder vivenciar a Hospedaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Municipal em São Paulo e suas histórias de vida. Agradeço a todos e reitero o que já contei à equipe e a Dra Dalva: podem me adotar! Riram. Porque eu vou continuar vindo aqui. Sempre. 

 

 

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