Antonio Cícero, um poeta sensível

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A oportunidade de conhecê-lo, assistí-lo, questioná-lo sobre sua criação, inspiração, delicadezas e desafios sobre o universo da poesia e da filosofia (onde transita há tempos) foi uma experiência enriquecedora.

Na Casa das Rosas, no Centro de Referência Haroldo de Campos (av Paulista, 37, SP), em plena noite de terça-feira (28), um grupo privilegiado (alguns oriundos de uma oficina sobre o poeta e escritor) redobrou a atenção quando o autor recitou alguns de seus poemas. E foram momentos encantadores, essência da oralidade, tão valorizada pelo autor.

Claro que não resisti e também lhe dirigi uma pergunta… Ele havia discorrido muito sobre o papel preponderante da dúvida na criação, na vida, no olhar filosófico sobre a história. Impactada pela morte do ator e diretor Antônio Abujamra (que partiu na terça por infarto), lembrei uma frase adorável dele: ‘Eu idolatro a dúvida’… e quis saber quando o poeta diante de sua criação transitava da dúvida para a certeza (de que o poema estava pronto e bom)?

Antonio Cícero me disse que era um momento delicado: ‘Quando produzo um poema, às vezes, sinto que ele está pronto, que deveria existir. – Eu, não! Não sou importante! -. Mas, por meio de um poema desse que percebo que está finalizado, que deveria existir… é que sinto que justifica a minha própria existência.”

Não há regras na produção poética. Há criações em que ele leva muito tempo lapidando, revendo. Mas, há casos em que o poema vai surgindo (natural e rapidamente) e ganha vida própria. “Como é o caso do poema ‘Guardar’. Nasceu pronto”, contou.

Ei-lo, portanto, pra nosso deleite:

 

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

 

“Ler um poema estimula nosso pensamento em todos os sentidos … Acho que uma das características mais importantes de um poema é que se trata de uma obra de arte polissêmica, isto é, que tem muitos sentidos. Não compete ao próprio artista tentar interpretá-la, isto é, tentar determinar ou delimitar os seus sentidos. Os leitores que a interpretem.” Antonio Cicero
http://antoniocicero.blogspot.com.br/

 

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