Antonio Bellini: 90 anos de emoção!

(Emocionada com a relação de amor, com a vida do seu Antonio Bellini. Convido a todos a lerem, com carinho, o relato da filha, a adorável Maria Helena Bellini. Obrigada por compartilhar conosco!!! bjs…) 

 

“Bellini, Toninho, Toninho da Lala… Pode chamá-lo que ele te atende! Sempre com um sorriso! Sempre com uma palavra de carinho!

Papiis e eu

 

Meu pai sempre foi pra mim um pai diferente do que foi pro meu irmão e pras minhas irmãs. Afinal, nasci muuuito tempo depois deles e “seo” Bellini já estava estabelecido na vida… já tinha passado dos 40 anos, já tinha mais experiência no setor “criação de filhos”. Por isso só posso falar por mim! Pelo pai que eu tenho ao meu lado! Recentemente, minha irmã Gloria Maria encontrou o seu diário e lá estava o dia em que eu nasci: 25 de setembro. Ela escreveu: “nunca vi papai tão feliz”! Não é pra querer pular de alegria ao saber disso?

A sua vida nunca foi muito fácil. Filho mais velho de José Bellini e Maria Izabel Delazari Bellini, nasceu numa fazenda no interior de São Paulo, no dia 10 de dezembro de 1924. Só pode frequentar o primeiro ano do ensino fundamental e logo meu nonno o levou pra trabalhar na lavoura de algodão. Aliás, bebezinho ele acompanhava a nonna na lavoura e seu “bercinho” (um pequeno caixote de madeira) era improvisado de debaixo de um pé de café. Na adolescência, não perdia um bailinho sequer nas redondezas da fazenda! Mó pé de valsa esse meu pai! A família da minha mãe, Lala Bataglini (seu nome verdadeiro era Olania), morava na fazenda vizinha e eram parentes, primos. Aos 14 anos começaram a namorar. Aos 20 anos se casaram… foram três dias de festança! Ele conta até hoje e se diverte! E se lembra de tudo, com detalhes!

Papai, mamãe e Nonna Izabel

 

Foram morar numa casinha ao lado da propriedade do nonno e logo na primeira semana caiu uma tempestade com ventos muito fortes e lá se foi o telhado! Ele gargalha e parece que um filme passa pela cabeça dele enquanto fala.

Ele foi um pai bravo, exigente, duro até… com meu irmão, José Bellini e com minhas irmãs, Gloria Maria e Arlete de Fátima. Comigo não… só fofurices!

Ele sempre acreditou no ser humano e é da época em que a palavra de um homem valia o seu fio do bigode. Por isso foi passado pra trás muitas vezes, um homem chegou a comprar toda a colheita de tomate dele e foi embora pra voltar no outro Natal e levar outra colheita sem ter pago nenhuma… ó que dó! Isso prova que ele sempre dá uma segunda chance de a pessoa fazer a coisa certa, né?

Ele foi presidente do Rotary Clube de Votorantim (do ladinho de Sorocaba, onde mora), ajudou a fundar o Banco de Olhos de Sorocaba (BOS – referência em transplantes de córnea em todo o Brasil), e também a Associação Beneficente Oncológica (ABOS – em Sorocaba). Ajudou inúmeras pessoas: da família, amigos, conhecidos… coração generoso tem esse “seo” Antonio. “Fazer o bem sem olhar a quem” era o seu lema!

Já morou em Domélia, distrito de Agudos, interior de São Paulo; em Piedade num bairro chamado Jurupará, em Salto de Pirapora, em Votorantim, em Sorocaba… Vida cigana tiveram ele, minha mãe e meus irmãos! Sempre trabalhando na lavoura, plantando e colhendo. Quando se mudaram para o bairro do Arado, em Salto de Pirapora, na década de 1960, o sítio tinha pomar, criação de bois, porcos, galinhas, carneiros… uma infinidade de animais! Eles plantavam de tudo um pouco. E na parte da frente da nossa casa abriram um armazém de secos e molhados. Quando eu nasci, moravam nesse lugar! Minha infância foi entre os bichos, cavalos, vacas e galinhas… debaixo dos pés de abacate, jabuticaba, manga, laranja, limão…

Minha mãe abria o armazém às 5 horas da matina e já tinha gente esperando na porta. Viveram sempre trabalhando de sol a sol. Toninho e Lala viram as duas guerras mundiais e muitas outras menores, viram governos serem eleitos e derrubados, passaram aperto por falta de grana, se mudaram de cidade, de vida, refizeram o caminho originalmente traçado… sempre pra dar mais saúde e conforto pra família. Meu pai trabalhou depois no comércio e se aposentou. Mas continuou trabalhando na loja que meu irmão abriu em Sorocaba. Fazia de um tudo! E seu carisma encantou uma legião de clientes. Por isso, toda semana ele passa na loja pra dar um alô!

Nas Bodas de Ouro deles, em 29 de Junho de 1996, estávamos na cozinha, minhas irmãs e eu, nos preparativos… ele chegou com um buquê de rosas vermelhas e, antes de entregá-lo pra minha mãe e sem que ela ouvisse, disse: “não sei como a Lala aguentou este chato aqui por tanto tempo”… Hahahaha… Eles estavam sempre em sintonia perfeita, mas é claro que tinham as interferências e naqueles momentos minha mãe fechava a cara e ficava sem falar com ele… ficavam “de mal”! Pra dali a pouco já estarem conversando leves e fagueiros como se nada tivesse acontecido. O diálogo é a lembrança mais marcante do relacionamento deles. Eles conversavam sobre tudo e sobre todos. Diariamente… cotidianamente! E o amor era visível nos olhos dos dois. Tão grande amor que pensei que, em 1998, quando minha mãe “saiu fora do combinado”… ele iria logo logo! Chorou quinem criança… todos choramos… dias, meses! Minhas duas sobrinhas, Milena e Ana Carolina, na época com seus 16 anos, se mudaram pra casa dele pra lhe fazer companhia. Ele levantava cedinho, preparava o café da manhã delas e as chamava pra irem pra escola… Funcionou como um bálsamo!

 

Mister Bellini

 

Logo abriu na cidade a Faculdade da Melhor Idade e minha irmã, Arletinha, sugeriu pra ele, que sempre foi tão inteligente (na matemática ele é insuperável), mas que nunca teve oportunidade de estudar, que se inscrevesse! E lá foi ele! Fez desde aulas de espanhol a danças circulares, terapia ocupacional, workshop da memória. Frequentou a ACM também, foi viajar com a turma da melhor idade! Foi eleito Mister Terceira Idade…

Hoje frequenta um clube ao lado do prédio onde mora… faz um pouquinho de musculação e TO. Já saiu na revista do clube como o frequentador mais velho em atividade!

O choro foi se transformando em saudade e o que sobrou foi que ele ficou mais emotivo… todas as notícias que o emocionam contém uma parcela de sentimento. Quando ele vai contar algo pra alguém dá uma choradinha básica… é a cara dele aqueles olhinhos verdes cheiiinhos de lágrimas e um suspirinho pra arrematar a conversa e finalizar a notícia a que assistiu ou leu.

 

Eternamente palmeirense

 

Levanta umas 6 horas da manhã e enquanto fica sentado numa cadeira com as pernas sobre a sua plataforma vibratória (sim! Ele comprou uma e faz exercícios nela de segunda a segunda) reza o terço. Depois faz todas as suas orações e pede por toda a família. Cada pedido é feito diretamente pra um santo que ele acha que vai ajudar a pessoa! Suas orações funcionam, viu? Muito! Homem de fé. Vai tomar seu café da manhã com o iogurte que ele mesmo faz toda a semana. Depois lê o jornal de Sorocaba diariamente e religiosamente – Cruzeiro do Sul. Sabe de tudo o que acontece no mundo.

Há dois anos e meio recebeu o diagnóstico de renal crônico com indicação para hemodiálise 3 vezes por semana. Chorou no consultório do médico. Ele já vinha tratando o problema com dieta e medicamentos, mas não foram suficientes. Hoje é a alegria das sessões, no hospital Santa Lucinda! Chega cumprimentando todo mundo pelo nome. Distribui beijinhos e abraços. Pergunta da vida das pessoas, se importa. E todos se importam com ele. Fez vários procedimentos para a colocação de cateter pra fazer a hemodiálise, pois muitas vezes as veias davam sinal da idade avançada, contrariando (e muito) a idade que ele de verdade tem… uns 18 anos de alegria de viver!

Na Páscoa e no Natal vai pessoalmente comprar ovos de chocolate/panetones pra tooodos do centro de hemodiálise, começando pelo segurança da portaria! Um desses seguranças o chama de “joia rara”. Quando vou buscar meu pai ele sempre me recomenda: “cuida bem dessa minha joia rara, hein?”… e eu obedeço!

Fico metade da semana em Sorocaba com ele e a família e outra metade em São Paulo, onde moro e trabalho. Sinto que isso o deixa muito feliz, pois cada vez que digo que estou indo pra Sampa ele faz aquela carinha de “não vá”, sabe qual?! Temos nossa programação da semana, cada dia um apontamento: compras no supermercado, visita pras tias (irmãs e cunhadas dele), médico, festa de aniversário… são muitas as atividades!

No ano passado ele passou por duas cirurgias numa tentativa dos médicos de darem mais qualidade de vida pra ele fazendo a hemodiálise em casa. Mas a cirurgia não deu certo e ele voltou a fazer as sessões no hospital. Por tudo isso resolveu comemorar em grande estilo os seus 90 anos! Comecei em setembro os preparativos. 120 convidados. Fotos antecipadas com fotógrafa profissional pra compor o vídeo-vida e o quadro que todos assinaram no dia da festa. Buffet, música ao vivo com meu primo cantor, bartenders, decoração… Pediu de presente fraldas geriátricas e cestas básicas pra doar pro asilo. Disse que já tem tudo de que precisa. Todos confirmaram presença e todos compareceram!

 

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Domingo, dia 7 de Dezembro de 2014, ao meio-dia! Estávamos todos lá! Firmes, fortes e sacudidos. Papis fez repouso por 15 longos dias pra ficar bem-bão pra festança. Só saía pra ir à hemodiálise. No dia, chegou cedo e recebeu tooodos com abraços e beijos. E fotos, muitas fotos… 800 no total! Dançou a tarantella, marca registrada da Famiglia Bellini. E recebeu carinho (fizemos um caderno de recordações e todos deixaram ali suas mensagens de “feliz aniversário” pra ele e também assinaram o quadro com a foto) e deu muito amor. E agradeceu! E riu muito e alto (outra característica dos Bellinis)… e se emocionou! E deixou todos emocionados!

O resultado disso tudo: mais de 100 pacotes de fradas geriátricas e umas 50 cestas básicas e umas tantas caixas de leite… tudo pro asilo… entregues pelo meu primo que fez questão de levar pro papis o recibo e levar o agradecimento do diretor do local, amigo do meu pai… que ficou emocionadíssimo com a visita do meu primo e com o agradecimento do amigo, pois fez tudo de coração, pra ajudar mesmo!

Em janeiro, como em todos os meses, ele faz exames de sangue no hospital e qual não foi a surpresa de todos, inclusive da equipe médica: resultados excelentes pra um senhor de 90 anos, renal crônico! O médico veio dar os parabéns pra ele, que ficou todo cheio de si. Ao chegar em casa, olhando pro quadro que tem sua foto com as mensagens de todos escritas no paspatur, virou-se pra mim e disparou: “não é pra menos meus exames estarem tão bons, olha a quantidade dos melhores desejos que escreveram aqui pra mim… não tem como ficar mal, né?”… Hahahaha… é muita fofurice!

Depois, olhando pra esse mesmo quadro e pras outras fotos do dia do aniversário disse: “deveria ter ido de chapéu e não de boina (no dia do aniversário). Fico muito mais bonito de chapéu”… aiaiai

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Ganhou também uma festa, no dia do aniversário mesmo, 10 de Dezembro de 2014, feita de surpresa pra ele pela turma da TO, no clube. Teve discurso e placa de prata de homenagem. No discurso estava lá: “Antonio, você é uma estrela com brilho próprio que ilumina as nossas vidas”…

E foi festejado também na festinha dos aniversariantes do mês. Ele levou o caderno pra todos escreverem… e o vídeo-vida pra emocionar de uma vez todo mundo!

Ele flutuava… Parece que pisava nas nuvens.

Em janeiro deste ano fui com ele pra renovar a carta de motorista. O médico deu um ano. Ele ficou bravo: “deixa pra lá… no ano que vem… eu volto!”…

Sua alegria de viver é tão grande que o seu médico disse que ele vai viver até os 100 anos… Eu não duvido!

Todas as vezes que me sinto mal, me lembro dele! Como alguém pode se sentir mal se tem como exemplo alguém tão de bem com a vida como pai?

Agora quer ir ao novo estádio do Palmeiras pra conhecer como ficou depois da reforma! Está esperando alguém que o leve!

Ele costuma dizer que não se incomoda em ir à hemodiálise e não poder comer certos alimentos proibidos para renais crônicos. Ele diz que a única desolação que tem na vida é usar prótese auditiva… Diz que muitas vezes não consegue ouvir por causa da barulheira do ambiente! Mesmo assim, continua indo a todos os lugares para os quais o convidam! Pra espalhar sua alegria aos quatro cantos do mundo…”

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