Alexandre Kalache: ‘Gerontolescência’

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 Reflexão sobre envelhecer com um grande cidadão, humanista, especialista no estudo do envelhecimento. Ele é um cidadão do mundo… ora no Rio de Janeiro, ora em Dubai, noutras em Nova Iorque… sempre palestrando e discorrendo sobre a causa – como ele próprio nomina – da gerontolescência! Um prazer tê-lo conhecido! Um parceiro nesta trajetória, um amigo que admiro.

AlexandreKalacheAlexandre Kalache trabalhou por anos na Organização Mundial da Saúde ajudando a criar políticas para um envelhecimento ativo e saudável. Fundou a Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento da Universidade de Londres. Lançou o marco político do envelhecimento ativo e o Movimento Global das Cidades Amigas dos Idosos. E hoje preside o Centro Internacional de Longevidade.

 

FMB: O que te levou a trabalhar com o universo do envelhecimento?

KALACHE

De certa forma foi muito por acaso. Eu saí do Brasil em 1975 para fazer meu mestrado em saúde pública na universidade de Londres. E eu estava trabalhando na época no Brasil num projeto de educação médica. Estava muito interessado na formação. E no Brasil eu achava que estava tudo errado porque a gente estava treinando médico para trabalhar em instituições hospitalares enquanto que, na verdade, a comunidade ficava descoberta.

Quando cheguei na Inglaterra eu vi uma nota de rodapé num artigo no Lancet… por acaso… meu olho bateu naquilo e mudou a minha vida! Que dizia que 83% dos médicos, na Inglaterra, que trabalhavam em  geriatra eram, na verdade, a imensa maioria, do sul da Ásia, médicos paquistaneses, da Índia, Bangladesh, enfim, médicos das ex-colônias que migravam para a Inglaterra e enfrentavam dificuldade em fazer carreira em outras especialidades e acabavam indo para a geriatria porque era deixada de lado pelos médicos formados na Inglaterra. Ou seja, uma especialidade de segunda classe.

Eu então resolvi que minha tese, no 2o ano de mestrado, seria uma pesquisa. Eu resolvi entender melhor os fatores determinantes da escolha da geriatria como especialidade. Averiguei isso com a Sociedade Britânica de Geriatria, que tinha cerca de 450 membros, via questionários. Pois não havia internet. Eu tive uma resposta muito boa, acima de 90%. Entre as perguntas eu queria saber o que ajudou na decisão pela geriatra, mas também se estava satisfeito com a área de atuação do trabalho.

E o grupo todo foi dividido em duas metades: uma metade que tinha ido para a geriatra e estava satisfeita com o trabalho; e a outra metade que tinha ido para a geriatria por razões econômicas pois precisava ganhar dinheiro rápido, precisava ascender ao topo da pirâmide hierárquica dos médicos dentro do hospital, e esses não necessariamente estavam satisfeitos. Ou seja, você tinha um grupo que estava bem e outro grupo, não.

E a única pergunta que diferenciava um grupo de outro era ter tido contato íntimo com idosos na família. De preferencia terem morado com idosos, em geral, os avós. Isso mais tarde que iria diferenciar quem era geriatra e estava feliz do que não estava e que trocaria de especialidade se tivesse oportunidade.

Depois fui fazer outra pesquisa, ainda para o mestrado, que era sobre a atitude do estudante de medicina, numa das escolas médicas em que pela primeira vez tinha inserido geriatria no currículo. Eram pequenos grupos de 8 estudantes que passavam um mês na enfermaria de geriatria. Pude mensurar a atitude deles frente ao idoso, a doenças crônicas, à morte… antes deles entrarem na enfermaria e dois meses depois de terem saído. De tal forma que eles não se lembrassem das respostas que tinham dado na primeira entrevista.

E em todos os grupos as atitudes eram melhores antes de passar pela geriatria, do que depois. Ou seja, expor estes estudantes à geriatria era contra-produtivo.

Pensei – deveria existir um departamento de envelhecimento saudável? Porque se fala de saúde do idoso as pessoas vão se afastar, se você fala envelhecimento saudável, envelhecimento ativo, a reação era outra.

 

Sou da geração baby boomer

Isso tudo me fez, ao voltar ao Brasil, querer continuar a trabalhar com isso. Porque sou um exemplo do envelhecer. Nessa faixa dos 50 aos 65 anos, nós somos os *baby boomers que estamos envelhecendo. No passado nós já inovamos. Nós somos uma geração muito grande, com mais saúde do que qualquer outra geração anterior, que já se beneficiou das vacinas, de cirurgias mais modernas, mais bem nutrido, com melhor nível profissional.

E a gente criou a adolescência que não existia. Até a segunda guerra mundial saíamos abruptamente da infância para a idade adulta. Aos 12, 14 anos, você ia trabalhar. E de repente consolidamos a adolescência, com direitos a estudar, a se formar.

E não é agora que fiquei velho que vou ficar caladinho. E não vou dizer que esses idosos só tem necessidades. Eu vou dizer que ele tem direitos… que a gente vai ter de satisfazê-los.

Eu vou ser coerente com meu passado, da mesma forma que um conjunto dessa geração fez a emancipação feminina, a liberação sexual, a luta contra o racismo, os movimentos estudantis dos anos 60, a luta contra homofobia mais recentemente, tudo isso tá aqui (na cabeça) e aqui (no coração).

E agora a gente vai criar uma nova construção social, do que é envelhecer, que eu chamo – da mesma forma que o termo adolescência –  nomino agora gerontolescência. E essa descrição será reconhecida daqui há 20, 30 anos.

 

Cultura do cuidado

É preciso reconhecer que o mais velho, que venha a ter um problema de saúde cognitivo precisa de uma cultura diferente. Não é paternalizar, nem infantilizá-lo. Ele precisa de uma cultura do cuidado: além da prevenção e do tratamento. Uma cultura do cuidado para acompanhar a revolução da longevidade.

Você previu tudo que tinha de ser previsto, você tratou tudo que tinha de ser tratado. Você reabilitou tudo que podia ser reabilitado. .. Mas vai ter muita gente que vai ficar com sequela de um derrame, Alzheimer, uma fratura grave mal resolvida, que vai ficar dependente e vai precisar de cuidado. Espero que isso aconteça cada vez mais tarde. Mas, vai existir. Porque hoje o grupo da população que mais cresce no Brasil são os que tem 85 anos ou mais.

 

Força produtiva

Criar esse espaço para esta força que não está sendo utilizada, que pode ser produtiva, que tem como contribuir. Estou falando até por mim. Estou aqui, ativo, ligado, com minha atividade internacional, com 68 anos, e não vou parar mesmo. Eu sou quase um septuagenário – isso era um palavrão quando eu era criança.

 

Desde que você continue com os 4 capitais essenciais para envelhecer bem:

Capital vital

Investir na tua saúde. Não para ser chato. Mas, se você cuidar do que come, não beber em excesso, não fumar, você vai continuar ativo. Vai continuar sendo potencialmente um recurso para a sociedade.

Capital conhecimento

Trabalhar a sociedade para que dê oportunidades de uma educação continuada ao longo da vida. E é para todo tipo de profissional – ex. o mecânico de automóvel antigamente precisava aprender só mecânica. Hoje precisa aprender mecânica e eletrônica. O diagnóstico do problema nos carros  requer isso hoje. Um dentista que parou de aprender e que não consegue interpretar uma tomografia computadorizada… então, está todo mundo tendo que aprender… Esse é o ciclo do capital do conhecimento.

Capital financeiro

Quem não se preparar e achar que aos 80 vai ter o que precisa, sem programar, vai se dar mal. Tem que planejar ao longo da vida.

Capital social

Faça escolha, invista na alegria, seja leve, não seja ranzinza. O copo está meio cheio. Não, meio vazio… Você está vivo. Isso é a melhor coisa que pode lhe acontecer. Não envelhecer significa morrer cedo. Envelhecer é bom. Morrer cedo é que não presta.

E o grande capital natural que nós temos hoje no mundo inteiro é o recurso que menos está sendo utilizado – não é petróleo, nem energia eólica. É velho. Vamos dar oportunidades a eles contribuírem com a economia. Eu não tenho culpa nenhuma de estar trabalhando. Primeiro, porque não estou competindo por um trabalho com um cara mais novo. Eu não podia fazer o que faço hoje quando tinha 25 anos. E o mais novo não consegue fazer o que faço hoje… E a essa altura eu não estou interessado em carreira. Já fiz a carreira. Estou interessado em deixar pegada, em nutrir, em ser mentor, ajudar, abrir caminho, dar oportunidades.

Hoje passei a manhã na escola de Desenho Industrial conversando com futuros designers na sociedade. E dizendo pra essa meninada – Olha, o futuro é seu! Vocês terão oportunidades de criar um mundo melhor, para vocês usufruírem ao envelhecer. Então tratem de abraçar a causa do envelhecimento e comecem a perceber o que vocês podem fazer para mudar. Porque isso não é só para o médico, o político, é para todo mundo junto.

 É a geratividade – a atividade entre gerações. É você dar em troca.

 

FMB: O Brasil está preparado?

KALACHE

Vejo que o Brasil não tá preparado. O Brasil tem a mentalidade ainda de ‘que eu sou esperto’. Vou me aposentar com 53…

Pensa bem: Aí, você vai viver 40 anos aposentado. Olha a palavra em português… ‘aposento’- vão te colocar no aposento, vão te excluir da sociedade. Não vão te ouvir, você não vai contribuir, não vai se sentir útil.

De pijama, quantos jornais você vai ler por dia, ou quanto tricô fará por dia? Pra que? Vai fazer uma coisa mais útil!

Tudo isso significa que a gente tem que desenvolver políticas para um envelhecimento ativo, que a OMS através do marco político, que eu desenvolvi com a ajuda de muita gente, definiu como um processo ao longo da vida.

Não é pensar o que vou fazer com a minha velhice quando tiver 65 anos. Não. Começa a pensar logo. Prepara. Invista nos 4 capitais.

Então eu vejo a tendência, não é para penalizar ninguém, mas a gente vai precisar se aposentar mais tarde. Mas, isso deve ser preparado e assistido. É você dar oportunidade para quem tem 70 anos fazer uma coisa diferente do que ele fazia aos 63. E você aprender novas técnicas e conhecimentos para você continuar inclusive empolgado, com tesão, senão você vai ficar sem motivação.

 

Momento para refletir e reinventar-se

Por volta dos 45, 50 anos tente fazer um ano sabático. Vai pro Nepal, para Ilhabela, pra onde for.

Pensa, reflita. Sabe por que? Porque você está chegando a primeira metade da sua vida. E ainda tem a outra metade.

Será que você vai querer continuar sendo médico? Eu fiz a decisão de ser médico aos 18, pode ser que com 45 eu queira ser jornalista. Vai em frente. Com energia. Vai se preparar para viver esta outra metade.

Eu tive a sorte de ter me reinventado. Com uma visão específica de envelhecimento, saí, fui fazer medicina social, saúde pública, na Inglaterra, mudei completamente de percepção. Fui pesquisador acadêmico, de repente estava depois na OMS com outro tipo de função, trabalhando com os problemas de nível global, desenvolvendo políticas… e a cada um, dois anos, reinventando, trazendo novas ações. E quando me aposentei – não porque eu quis, era compulsório – foi um presente. Eu já estava na OMS há 13, 14 anos, estava na hora de mudar mesmo.

Estou aposentado há 6 anos, e eu nunca fui tão ativo! E acho que todo mundo que se esforçar e pensar – eu não vou parar – não vão me obrigar a parar, e se me obrigarem a parar com uma aposentadoria compulsória, eu vou me reinventar. Eu vou à luta. Se não for através de emprego formal, por outras formas. Aliás, tem muita gente que nem precisa. Daí vai ser voluntário!

Primeira experiência que tive que mudou a vida foi trabalhar com Dom Helder Câmara. Eu, menino ainda, minado, de Copacabana, de classe média… de repente estava frente a essa oportunidade…

As oportunidades estão sempre presentes. E a oportunidade que é bem sucedida é aquela que você enxerga e agarra.

 

(Alexandre Kalache – akalache@nyam.org)

* Baby Boom (baby boomers) é uma definição genérica para crianças nascidas durante uma explosão populacional – Baby Boom em inglês, ou, em uma tradução livre, Explosão de Bebês. Em geral, a atual definição se refere aos filhos da Segunda Guerra Mundial, já que logo após a guerra houve uma explosão populacional. Nascidos entre 1943 e 1964, hoje são indivíduos que foram jovens durante as décadas de 60 e 70 e acompanharam de perto as mudanças culturais e sociais dessas duas décadas.

 

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